Há um mito social de que pessoas com deficiência são indivíduos únicos, especiais e que, por isso, seriam seres à parte, de modo que não seriam dotados de sexualidade ou desejo, por vezes, considerados anjos (na egrégora cristã, anjos não possuem sexo ou gênero). Em Special (2019), série da Netflix, o protagonista Ryan, interpretado por Ryan O’Connell, é um homem gay com paralisia cerebral que inicia sua jornada por independência e autonomia em sua vida. Entretanto, ele constata que não possui habilidades básicas para sobrevivência por conta de uma criação extremamente superprotetora e capacitista, que lhe tolheu o direito de se tornar um adulto funcional, conforme o esperado pela sociedade típica/sem deficiência.
Já no primeiro episódio, a série traz um embate tanto da perspectiva biomédica da deficiência quanto do imaginário social que pessoas sem deficiência têm sobre pessoas com deficiência. Tal visão é exemplificada de forma cômica no momento em que Ryan explica sobre sua deficiência para uma criança que o confronta, a fim de entender por que ele não foi a um hospital para ser corrigido. Essa é uma ideia que norteia a perspectiva biomédica: a necessidade de cura ou correção. A dúvida explanada por uma criança nos traz uma reflexão de como a sociedade já introjeta a ideologia de corponormatividade, de padrões corpóreos desde o início da vida social.
Além disso, temos as questões subjetivas que o protagonista carrega por não se sentir pertencido a um lugar, por possuir diferenças e deficiências. Entretanto, por ter potencialidades, o personagem não consegue ficar na “nata da fisioterapia”, ou seja, sofrendo um duplo processo: sendo marginalizado tanto por ser pessoa com deficiência quanto por possuir menor necessidade de suporte.
No momento de uma conversa com o seu fisioterapeuta, Ryan apresenta uma quebra da mitificação de que pessoas com deficiência são puras e sem sexualidade. Ao abordar a sexualidade, ele não apenas evidencia que tem desejos, como também uma orientação sexual. Contudo, o protagonista também expõe que não possui autoestima para habitar espaços que outros homens gays frequentam livremente. Ainda no mesmo momento, esse fisioterapeuta demonstra uma visão capacitista ao dizer que Ryan tem sorte por ter uma deficiência leve e que ela é alvo de uma superação.
Posteriormente, temos a questão familiar na vida do protagonista, uma vez que, em vez de sua mãe assumir uma posição encorajadora e de apoio à sua tomada de decisão de iniciar uma vida no mercado de trabalho, ela o desencoraja e tenta persuadi-lo a ficar em casa com ela. Os argumentos dessa mãe se baseiam em uma suposta incapacidade de Ryan para desempenhar algumas atividades de forma autônoma e, assim, o desestímulo ocorre sob a roupagem do cuidado e do amor. No universo do trabalho, por sua vez, persiste a ideia de que a pessoa com deficiência pertence a lugares de reabilitação e cuidado, logo não deveria estar ali num ambiente laboral. O personagem é escanteado a fazer um serviço de menor importância, colocando Ryan mais uma vez num lugar de incapacidade.
É importante e necessário notar que Ryan não possui uma relação boa consigo mesmo, enquanto pessoa com deficiência. Tanto é que ele abnega sua condição e assume que a forma como ele se apresenta ali é fruto de um acidente. A partir daí é que ele consegue um trabalho tido como digno, por conta da pena que sua chefe teve ao saber que é uma condição permanente, mas devido ao acidente e não à paralisia cerebral. Também é interessante perceber que, quando sua mãe sugere que ele escreva sobre a paralisia, ele confessa que esta condição não é algo aprazível com que goste de conviver, apesar de ser o assunto principal em sua vida. Assim, dado o golpe de sorte do atropelamento, Ryan esconde uma parte de si que a sociedade deseja não ver.
Com isso, vem o questionamento: o que há de especial nas pessoas com deficiência? Como demonstrado no episódio, a sociedade não quer que pessoas com deficiência sejam cidadãos, pessoas como quaisquer outras, mas sim que permaneçam fora do alcance e da visão da normatividade corpórea padrão. Nesse contexto, Ryan vai desafiando a sociedade, bem como seus próprios conceitos de capacidade e incapacidade ao longo da série, de modo a demonstrar uma nova visão de uma pessoa com deficiência LGBTQIA+.
Leia também a segunda análise sobre a série: Pessoas com deficiência são sempre boas e puras?
Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Corpo, Deficiência e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2024.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz.