Na primeira análise sobre a série Special (2019) da Netflix, discutimos o quão especiais são as pessoas com deficiência. Nesta segunda análise, apontamos características que fazem do protagonista uma pessoa como outra qualquer, com qualidades e defeitos. Ryan é um adulto com Paralisia Cerebral (PC) em busca de conquistar sua vida autônoma e amorosa. Com o desenrolar da série, Ryan, interpretado pelo ator Ryan O’Connell, se vê confrontado com seu desenvolvimento, enquanto adulto disfuncional. Sua mãe superprotetora, Karen, fez de sua vida um objeto de devoção e total entrega, o que significou a renúncia de várias áreas da vida para o cuidado de Ryan.
Entretanto, isso o faz pensar que a vida da mãe gira em torno de suas necessidades, até o momento em que ele, finalmente, abre um espaço saudável na relação, na tentativa de diminuir a codependência entre ambos. Karen (a mãe) inicia um relacionamento amoroso com o vizinho sem avisar Ryan, criando, assim, um atrito. Mas o relacionamento com o vizinho acaba por conta da não aceitação do filho, que achava que ele deveria namorar antes da mãe, desconsiderando toda a vida prévia de Karen.
É interessante salientar que a série traz uma parte da vida de pessoas com deficiência e de seus familiares que não é tratada pelas mídias ou pela cultura popular: a humanização das pessoas com deficiência. Em específico, não consideram o sentido negativo da humanidade, pois ser egoísta também é uma questão de humanização. Ainda que não seja positiva, continua sendo uma característica humana, que se opõe a uma pseudo-relação de beatificação de corpos com deficiência. Isso cria uma ilusão de que não há dualidade na relação dessas pessoas com seus familiares e/ou pares. Na verdade, eles podem assumir uma posição dúbia, individualista e dissimulada, provando que esse corpo social, apesar de sofrer inúmeras mazelas e preconceitos, também é capaz de provocar o mal ao outro. Logo, estão longe da santificação imposta por algumas visões culturais.
Ainda nesse contexto, é interessante pontuar que quem comenta e traz a visão não santificada de uma pessoa com deficiência é o vizinho (Phil) e a chefe (Olivia) de Ryan. Nesse sentido, Phil indaga, numa conversa com Karen, se uma pessoa com paralisia cerebral não poderia ser babaca, ao passo que a mãe de Ryan o confronta e diz que Phil não entende sua vida como mãe de um PCD. Vemos que Karen já possuía uma ideia tão cristalizada de que Ryan não pode ser maléfico, que um simples questionamento faz ruir o único relacionamento que nutria e a fazia voltar para si.
Outro ponto importante é que Ryan possui um capacitismo internalizado, o que é demonstrado quando ele vai a um encontro com o primo de Olívia (Michael), que é surdo. Ao chegar no restaurante, o protagonista confunde o intérprete com o alvo do encontro. Ao se dar conta de que seu par de encontro é surdo, Ryan começa a desconsiderá-lo como um possível pretendente, a ponto de mal falar com Michael, ainda que ele peça a Ryan para falar diretamente com ele.
Em um momento posterior, em uma conversa com sua chefe, Olívia, ele acaba admitindo que era melhor ser “manco” do que surdo. Isso deixa Olívia surpresa e a faz devolver a realidade bem crua para Ryan, mostrando como sua fala e atitudes foram capacitistas, e como ele tentava se vitimizar.
Tal fato o leva a uma conversa reflexiva com a mãe, na qual ele se questiona se a sua existência faz sentido para alguma pessoa. A resposta positiva da mãe o deixa à vontade para dizer que era importante fazer sentido para ela, justamente pelo laço familiar e pela norma social. Por fim, ela admite que terminou com Phil por conta do filho, na esperança de que Ryan ficasse feliz, demonstrando mais uma vez a questão do auto-sacrifício materno presente na vida de muitas mães de pessoas com deficiência.
Nesse sentido, a série revela que o fato de alguém se tornar “especial” na vida de outras pessoas muitas vezes pode impactar negativamente na rotina, planos e expectativas dessa pessoa. O protagonista expõe a realidade de várias pessoas com deficiência ao ter um comportamento autocentrado, de forma negativa e egoísta. Essa característica o humaniza, dando-lhe o direito à dualidade, à possibilidade de ter uma outra narrativa, mais crível e real. Ou seja, pessoas com deficiência ainda são humanos e não seres beatificados, e podem sim fazer o mal a outras pessoas, tal qual como qualquer outro indivíduo em nossa sociedade.
Leia também a primeira análise da série Special, que questiona se as pessoas com deficiência são mesmo especiais.
Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Deficiência, Corpo e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2024.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz.