Ao longo da viagem, o espectador acompanha uma aventura divertida e emocionante que, ao mesmo tempo, questiona a forma como a sociedade enxerga as pessoas com deficiência intelectual. Mais do que contar uma história sobre três amigos, o filme convida à reflexão sobre autonomia, inclusão e os preconceitos que ainda cercam a deficiência, objetivo desta análise.
Dirigido por Marcelo Galvão, Colegas, disponível na Netflix, é considerada uma das produções mais importantes do cinema brasileiro quando o assunto é inclusão. Inspirado no clássico Thelma & Louise, o longa acompanha a jornada de três jovens que deixam a instituição onde vivem para realizar seus sonhos: Stallone deseja conhecer o mar, Márcio sonha em voar e Aninha quer encontrar um marido e se casar. Esses desejos representam autonomia e liberdade, elementos frequentemente negados às pessoas com deficiência intelectual. Ao longo da viagem, eles cruzam diferentes cidades, encontram diversas pessoas e acabam sendo perseguidos pela polícia devido às situações inusitadas que provocam, sem compreender totalmente as consequências de seus atos.
Durante muito tempo, a deficiência foi compreendida principalmente pelo modelo médico, que entende a deficiência como um problema individual, localizado no corpo ou na mente da pessoa, exigindo tratamento, reabilitação ou controle. Em oposição, o modelo social da deficiência afirma que grande parte das limitações enfrentadas pelas pessoas com deficiência é produzida pelas barreiras sociais, pelo preconceito e pela falta de acessibilidade. Nessa perspectiva, a deficiência deixa de ser apenas uma característica do indivíduo e passa a ser compreendida também como resultado da maneira como a sociedade organiza suas relações.
Essas duas percepções sobre a deficiência podem ser percebidas em Colegas. Logo no início do filme, o narrador apresenta Stallone, Márcio e Aninha, contando um pouco da história de cada um e de como chegaram à instituição onde vivem. É interessante perceber que, embora a síndrome de Down faça parte de suas vidas, ela não é utilizada como elemento principal para definir suas identidades. Antes mesmo de serem apresentados como pessoas com deficiência, eles aparecem como indivíduos que possuem sonhos, gostos, medos e desejos. Essa escolha rompe com uma representação muito comum na mídia, que reduz personagens com deficiência apenas ao diagnóstico.
O desejo de viver novas experiências nasce quando Stallone assiste a um filme e decide reproduzir a aventura ao lado dos amigos. Usando máscaras inspiradas no cinema, eles fogem da instituição, comem em uma lanchonete sem pagar, roubam um carro e seguem viagem. Embora essas ações possam ser interpretadas como crimes, o filme deixa evidente que os protagonistas não agem por maldade ou violência. Eles reproduzem cenas que aprenderam assistindo a filmes e acreditam estar vivendo uma grande aventura. Essa diferença entre a intenção dos personagens e a interpretação da sociedade torna-se um dos aspectos mais importantes da narrativa, que às vezes mostra os personagens de maneira muito caricata em relação à deficiência.
Em determinado momento, os três são parados por um policial na estrada. A conversa acontece de maneira tranquila e o policial não demonstra medo. Enquanto verifica os documentos no carro, eles fogem sem compreender a situação. O filme mostra que suas ações não são motivadas por intenção criminosa, mas pela dificuldade de compreender completamente o contexto. Entretanto, há um limite muito tênue entre o humor e o capacitismo.
Outro aspecto interessante é a forma como a imprensa passa a retratá-los. À medida que pequenos delitos vão acontecendo durante a viagem, jornais e programas de televisão passam a descrevê-los como indivíduos perigosos e violentos. O espectador sabe que essa imagem não corresponde à realidade, o que evidencia como a mídia pode reforçar estigmas.
O capacitismo aparece em diversas situações. Os protagonistas são chamados de ‘retardados’, ‘deficientes’ e outros termos pejorativos. Em uma cena, mães afastam seus filhos da presença do trio, como se eles representassem perigo. Essas atitudes revelam preconceitos profundamente enraizados. Ao mesmo tempo, Colegas questiona a infantilização das pessoas com síndrome de Down, mostrando que os protagonistas demonstram desejos tipicamente adultos: casar, dirigir, viajar, decidir e construir seus próprios projetos de vida.
O desfecho do filme é particularmente simbólico. Quando a polícia alcança o grupo, Márcio sobe sobre uma mesa, tentando realizar seu sonho de voar. Os policiais interpretam aquele gesto como ameaça e ele acaba sendo atingido por um disparo, mas sobrevive. Os três realizam seus sonhos. Márcio finalmente consegue realizar o sonho de voar de asa-delta, Aninha encontra um marido e celebra seu casamento, e Stallone atinge seu objetivo principal: chegar à praia e ver o mar. Nos instantes finais, o filme apresenta os três amigos voando de avião, voltando para casa. A sequência simboliza liberdade, amizade e realização dos sonhos, reforçando que seus maiores obstáculos nunca foram a síndrome de Down, mas as barreiras impostas pela sociedade.
Colegas rompe com representações tradicionais da deficiência ao construir personagens complexos, bem-humorados, afetivos e protagonistas de suas próprias histórias. Por outro lado, fica no limite entre o humor e o capacitismo quando convida o telespectador a rir de situações ocasionadas em função da deficiência. Mais do que uma comédia, o filme convida o público a refletir sobre autonomia, inclusão e direitos das pessoas com deficiência e os limites do humor.
Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Corpo, Deficiência e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2026.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz.