Imagem da animação Procurando Nemo. À direita da cena, Nemo aparece sorrindo levemente, com os olhos voltados para a frente. Sua nadadeira direita é visivelmente menor que a esquerda, característica que o diferencia ao longo da história. Ao fundo, vê-se um ambiente marinho em tons de azul. Na parte inferior da imagem há diferentes corais em tons de roxo, rosa e cinza, além de vegetação marinha ao fundo, desfocada, sugerindo profundidade. Reprodução/Pixar
Lançada em 2003 pela Pixar e dirigida por Andrew Stanton, com co-direção de Lee Unkrich, a animação Procurando Nemo acompanha a jornada de um jovem peixe-palhaço que possui uma nadadeira menor que a outra em decorrência de um ataque sofrido ainda antes de seu nascimento. Em um dos filmes de animação mais populares das últimas décadas, a deficiência não aparece como tema explícito. A narrativa acompanha, principalmente, a busca de Marlin pelo filho desaparecido, enquanto as discussões sobre deficiência são construídas de forma sutil, por meio das relações entre os personagens e da maneira como eles compreendem as diferentes formas de existir e de interagir com o mundo.
A história tem início quando Nemo, desobedecendo ao pai, é capturado por um mergulhador e levado para um aquário em um consultório odontológico. Enquanto Marlin atravessa o oceano para encontrá-lo, o jovem peixe passa a conviver com personagens de trajetórias bastante distintas. Antes disso, porém, o pequeno peixe vivia sob a constante vigilância do pai, que, marcado pela perda da companheira e dos demais ovos, enxergava a nadadeira menor do filho como um sinal de vulnerabilidade. A captura rompe essa relação de superproteção e inaugura um processo de transformação para ambos.
No aquário do consultório, Nemo encontra personagens com histórias, corpos e experiências muito diferentes entre si. Gill possui cicatrizes e uma nadadeira lesionada; Bolota é um peixe baiacu que, quando fica estressado ou irritado, incha até dobrar de tamanho; Peach, a estrela do mar, observa o mundo através do vidro; e cada habitante desenvolve maneiras particulares de lidar com as limitações daquele ambiente. Ao mesmo tempo, no oceano, Marlin é acompanhado por Dory, personagem marcada pela perda de memória recente. Embora essa característica gere situações cômicas ao longo da narrativa, ela não reduz a personagem à sua dificuldade. Sua criatividade, persistência e capacidade de estabelecer vínculos fazem com que Dory desempenhe um papel fundamental na jornada, rompendo com representações que associam diferenças cognitivas à incapacidade.

Cena da animação Procurando Nemo. Em primeiro plano, há um aquário de vidro com fundo coberto por pequenas pedras azuis. No centro, Nemo, um pequeno peixe-palhaço laranja com listras brancas, está saindo de uma pequena máscara de mergulho decorativa. Ao seu redor estão outros peixes do aquário de diferentes cores e formatos, além de uma estrela-do-mar rosa presa ao vidro do aquário. O cenário é composto por plantas aquáticas verdes e roxas, criando um ambiente colorido e iluminado. Os personagens parecem reunidos em torno de Nemo, sugerindo um momento de interação entre os habitantes do aquário. Reprodução/Pixar
Ao reunir personagens tão distintos, a animação cria um ambiente povoado por sujeitos que desafiam padrões de normalidade. Nesse contexto, o aquário deixa de ser apenas um espaço de confinamento e se transforma em um local de convivência entre diferentes experiências corporais e cognitivas. É ali que Nemo começa a questionar a imagem de incapacidade construída ao seu redor e passa a compreender sua nadadeira não como um impedimento absoluto, mas como uma característica entre tantas outras que compõem sua identidade.
Mais do que representar uma característica física, a nadadeira do personagem funciona como um elemento narrativo que evidencia as barreiras construídas socialmente em torno da deficiência. Em diversos momentos, os limites atribuídos a Nemo surgem menos de sua condição corporal e mais das expectativas dos outros sobre aquilo que ele seria ou não capaz de fazer.
Essa representação pode ser compreendida à luz das diferentes formas pelas quais a deficiência tem sido entendida ao longo da história. Durante muito tempo, predominou o chamado modelo médico da deficiência, que localiza a deficiência no corpo do indivíduo e a interpreta como uma limitação a ser corrigida, tratada ou compensada. Embora tenha contribuído para avanços na reabilitação e na assistência em saúde, esse modelo também reforçou visões capacitistas ao associar a deficiência à incapacidade e à dependência. No filme, essa lógica aparece na forma como Marlin interpreta a nadadeira menor de Nemo, acreditando que ela torna o filho naturalmente mais frágil e menos capaz de enfrentar os desafios do oceano.
Em contraposição, os estudos contemporâneos têm enfatizado o modelo social da deficiência, segundo o qual os obstáculos vividos por pessoas com deficiência não decorrem apenas de seus corpos, mas também das barreiras físicas, culturais e atitudinais construídas pela sociedade. Essa perspectiva está presente na narrativa quando os maiores desafios enfrentados por Nemo surgem das expectativas projetadas sobre ele, e não exclusivamente de sua nadadeira. Assim, o filme desloca a discussão da limitação corporal para a forma como a diferença é percebida e tratada pelos outros.
A relação entre Nemo e Gill representa um contraponto importante a essa dinâmica. Diferentemente de Marlin, Gill não transforma a deficiência em um elemento central da identidade do jovem peixe. Ao compartilhar sua própria experiência e demonstrar confiança em suas capacidades, ele apresenta a Nemo uma nova forma de compreender sua condição. Em vez de enxergar a nadadeira menor como um limite permanente, Gill a trata como apenas uma das características que compõem sua identidade. Essa convivência permite que o personagem desenvolva maior autonomia e confiança em si mesmo, rompendo com a imagem de incapacidade que havia construído sobre si.
Ao final da narrativa, a emocionante volta de Nemo para casa também marca a transformação de Marlin. Depois de enfrentar inúmeros desafios em sua busca pelo filho, ele passa a compreender que proteger não significa impedir experiências ou limitar a autonomia. O reencontro entre os dois encerra não apenas a aventura, mas também um processo de ressignificação da deficiência e das relações construídas em torno dela.
Dessa maneira, a obra permite uma reflexão sobre os diversos corpos e formas de se relacionar com o mundo. Sem fazer da deficiência seu tema explícito, o filme apresenta personagens complexos, cujas diferenças não são reduzidas a estereótipos de tragédia, heroísmo ou superação. Ao final, a obra sugere que a deficiência não deve ser compreendida apenas como uma condição corporal, mas também a partir das relações, expectativas e barreiras que moldam a experiência dos indivíduos em sociedade.
Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Corpo, Deficiência e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2026.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz.