Inclusão ou capacitismo no anime A Sign of Affection?

Yuki Itose, uma jovem universitária com deficiência auditiva, vê sua rotina mudar ao conhecer Itsuomi Nagi, um rapaz viajante, poliglota e extremamente curioso sobre o mundo. O encontro dos dois acontece em um transporte público, quando um estrangeiro tenta falar com Yuki em inglês e ela não consegue responder. Itsuomi então interfere para ajudá-la, e a partir dali nasce uma história de amor.
Ilustração em estilo anime mostrando duas pessoas sob guarda-chuvas. À esquerda, uma pessoa de cabelos curtos prateados veste um casaco escuro com gola marrom e segura um guarda-chuva preto. À direita, uma pessoa de cabelos longos avermelhados veste um casaco verde-claro e segura um guarda-chuva lilás. As duas estão posicionadas uma de frente para a outra sobre um fundo claro com flores em tons de amarelo, rosa, verde e roxo. No topo da capa há um título em caracteres japoneses.

Criado pela dupla Suu Morishita e dirigido por Yūta Murano, o anime A Sign of Affection foi adaptado do mangá para as telas em 2024 pelo estúdio Ajia-do Animation Works.  À primeira vista, o anime parece apenas mais um romance universitário delicado e sensível. Entretanto, logo nos primeiros episódios, fica claro que a narrativa pretende discutir algo maior: como pessoas com deficiência auditiva experienciam o mundo e como esse mundo, quase sempre construído para ouvintes, frequentemente as coloca em situações de dificuldades. A questão central que atravessa a obra é justamente essa: até que ponto A Sign of Affection consegue construir uma representação sensível da surdez sem cair em estereótipos capacitistas ou na romantização da figura do “salvador”?

Capa do anime. Mostra Iuki e Itsuomi se olhando na chuva e fazendo o sinal em que colocam o dedinho no queixo.

O primeiro episódio, intitulado “O mundo de Yuki”, já estabelece essa discussão. O anime apresenta o cotidiano da protagonista, enfatizando as limitações impostas muito mais pela sociedade do que pela surdez em si. Yuki tem dificuldade em realizar leitura labial quando as pessoas falam rápido demais, desviam o rosto ou cobrem a boca. Em alguns momentos, percebe que pessoas próximas estão falando sobre ela, mas não consegue compreender exatamente o que está sendo dito. Existe uma angústia constante nessa impossibilidade de acessar completamente o ambiente ao redor.

A direção assinada por Yuuta Murano demonstra preocupação em tornar o anime acessível e, ao mesmo tempo, aproximar o espectador da percepção sensorial da protagonista. Uma cena dentro do trem, por exemplo, mostra o movimento por meio das luzes e da velocidade da paisagem pela janela, sem depender apenas do som do vagão. 

Além disso, a produção teve o cuidado de animar corretamente os gestos da língua de sinais japonesa. A comunicação de Yuki acontece principalmente por meio dela, mas também por mensagens de texto no celular, expressões faciais e um pequeno quadro branco com caneta que ela carrega consigo. Assim, a obra mostra que comunicação não se resume à fala oral e que pessoas surdas desenvolvem diferentes formas de interação social.

Essa preocupação também esteve presente na dublagem brasileira do anime, que escalou uma atriz com deficiência auditiva oralizada para interpretar Yuki. Ademais, existe um cuidado perceptível em construir uma personagem surda que não seja reduzida apenas à própria deficiência. Yuki é tímida, romântica, curiosa, insegura e sonhadora. Sua surdez faz parte de sua identidade, mas não é a única característica que a define.

Ainda assim, A Sign of Affection apresenta elementos ambíguos em sua representação. Ao mesmo tempo em que humaniza a protagonista, também coloca frequentemente o namorado Itsuomi em uma posição quase idealizada, como alguém que “expande o mundo” de Yuki. Essa metáfora do mundo aparece repetidas vezes ao longo da narrativa. Yuki vive em um universo considerado pequeno e limitado, enquanto Itsuomi surge como alguém cosmopolita, livre e experiente, capaz de apresentá-la a novas possibilidades.

Essa dinâmica se torna problemática em alguns momentos porque aproxima a narrativa de um imaginário bastante comum nas representações da deficiência: o da pessoa sem deficiência que “salva”, “ensina” ou “liberta” a pessoa com deficiência de uma vida limitada. Logo no início do anime, por exemplo, Itsuomi puxa Yuki para perto da calçada porque uma moto está vindo e ela não percebe. A cena reforça a vulnerabilidade da protagonista e posiciona o rapaz como alguém protetor.

Essa lógica se repete em diferentes momentos da trama. Quando Itsuomi a ajuda na interação com o estrangeiro no trem, Yuki agradece mostrando o aparelho auditivo que utiliza. Nesse instante, ela pensa que ele a está observando como se fosse “um animal exótico”. Pouco depois, Itsuomi comenta que nunca conheceu ninguém como ela. A cena é interessante justamente porque revela uma percepção muito comum entre pessoas com deficiência: a sensação de despertar curiosidade excessiva ou serem tratadas como algo “diferente” e fascinante.

A imagem mostra uma cena da série em que, inicialmente, Itsuomi encara Yuki e ela pensa: “Ele está me olhando como se eu fosse uma criatura rara.” Na cena seguinte, ele fala: “Eu nunca conheci alguém como você antes”, e Yuki pensa: “Eu sabia.” 

Ao longo do anime, que contém 12 episódios, Itsuomi frequentemente faz perguntas sobre a surdez de Yuki, observa seus comportamentos e demonstra curiosidade constante sobre sua forma de comunicação. Embora a narrativa apresente isso como interesse genuíno e aproximação afetiva, existe uma linha tênue entre interesse e exotificação. Yuki, em muitos momentos, parece aceitar certas atitudes justamente por estar apaixonada.

Essa questão aparece principalmente na forma como o personagem invade o espaço físico da protagonista. Itsuomi frequentemente segura suas mãos, toca seu rosto ou se aproxima repentinamente, mesmo quando os dois ainda não possuem intimidade suficiente para isso. Em determinado momento, ele pergunta se ela se incomoda com esses contatos físicos ou as perguntas frequentes, e Yuki responde que não se incomoda “porque é ele”. A cena tenta reforçar o romance entre os dois, mas também levanta discussões importantes sobre consentimento e sobre como pessoas com deficiência frequentemente têm esse “espaço pessoal” invadido por terceiros.

Outro ponto interessante da obra é a presença do amigo de infância de Yuki, um personagem ouvinte que conhece a língua de sinais e nutre sentimentos por ela. Diferente de Itsuomi, ele representa um capacitismo mais explícito e paternalista. Em diversos momentos, afirma que Yuki deveria permanecer em lugares “seguros”, questiona sua decisão de entrar na faculdade e demonstra desconforto com a independência que ela busca conquistar.

Esse personagem evidencia um discurso social bastante comum direcionado às pessoas com deficiência: a ideia de que elas precisam ser protegidas constantemente e de que a autonomia representa perigo. A superproteção aparece travestida de cuidado, mas acaba limitando possibilidades de participação social. Quando Yuki escolhe ingressar na universidade, ela explica que queria “expandir seu mundo”, já que estudou durante anos em uma escola voltada para pessoas com deficiência auditiva e desejava conhecer novas experiências.

Curiosamente, apesar de o anime mostrar a protagonista cercada quase exclusivamente por pessoas ouvintes durante boa parte da narrativa, a obra também aborda a importância da comunidade surda. Isso acontece principalmente quando Yuki tenta encontrar um emprego para conseguir dinheiro e viajar com Itsuomi. Enquanto sua amiga ouvinte consegue trabalhar sem grandes dificuldades, Yuki encontra obstáculos relacionados a conquistar uma vaga.

É somente nesse momento que ela reencontra uma antiga colega surda da escola, que a ajuda a conseguir trabalho. A cena reforça algo importante: pessoas com deficiência não precisam apenas de inclusão em espaços majoritariamente não deficientes, mas também de redes de apoio formadas por outras pessoas que compartilham experiências semelhantes.

Outro mérito do anime está em mostrar pequenas atitudes cotidianas que muitas vezes passam despercebidas para pessoas ouvintes. O anime evidencia como falar rápido demais, cobrir a boca enquanto fala ou tocar bruscamente uma pessoa surda por trás podem ser atitudes desconfortáveis e até assustadoras. Existe uma cena em que um personagem chega tocando Yuki de forma abrupta, sem considerar que ela não consegue ouvir passos ou perceber aproximações da mesma forma que uma pessoa ouvinte.

São detalhes simples, mas que tornam a representação mais humana e próxima da realidade. A Sign of Affection não transforma a deficiência em tragédia extrema nem em “lição de superação”. Em vez disso, mostra desafios cotidianos que surgem justamente da falta de adaptação social.

Talvez seja exatamente por isso que o anime tenha conquistado uma recepção tão positiva do público. A obra alcançou enorme popularidade nas redes sociais e possui avaliação extremamente alta na plataforma Crunchyroll, onde cerca de 122.000 espectadores classificaram a obra.

Ainda assim, o personagem Itsuomi divide opiniões. Parte do público o enxerga como um parceiro ideal justamente porque aprende língua de sinais para se comunicar com Yuki e busca incluí-la em seu cotidiano. Outra parte considera seu comportamento excessivamente invasivo e acredita que a narrativa o coloca constantemente em uma posição heróica apenas por realizar ações básicas de inclusão.

Essa discussão é importante porque revela como nossa sociedade ainda enxerga atitudes inclusivas como algo extraordinário quando realizadas por pessoas sem deficiência. Aprender língua de sinais para se comunicar com alguém surdo deveria ser compreendido como construção de acessibilidade e vínculo, não como ato heroico. Quando o anime transforma esse comportamento em prova excepcional de amor, acaba reforçando a ideia de que pessoas com deficiência devem ser gratas por receberem inclusão.

Mesmo com essas ambiguidades, A Sign of Affection consegue oferecer uma representação muito mais cuidadosa da deficiência auditiva do que grande parte das obras audiovisuais. O anime permite que a protagonista exista para além de sua surdez, constrói momentos de afeto genuíno e apresenta dificuldades reais enfrentadas por pessoas surdas, sem reduzi-las apenas ao sofrimento.

Mais do que contar uma história de romance, a obra convida o espectador ouvinte a perceber quantas barreiras são produzidas socialmente todos os dias. Muitas vezes, o problema está na maneira como o mundo é organizado, sem considerar diferentes formas de existir e se comunicar.

Nota: A elaboração deste ensaio contou com o auxílio da ferramenta de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI), utilizada como suporte para organização das ideias e revisão final da escrita. A análise crítica, estruturação textual e seleção dos argumentos foram desenvolvidas pela autora. 

Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Corpo, Deficiência e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2026.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz. 

Referências

https://www.uol.com.br/splash/noticias/2024/02/29/a-sign-of-affection-o-romance-da-jovem-surda-que-conquistou-o-japao.htm

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