Seria o corpo com deficiência “inválido” para o amor?

As predições de Stephen Hawking sobre os perigos da Inteligência Artificial nunca estiveram tão em alta. O filme "A teoria de Tudo" conta um pouco da história do físico, mas não sobre seus feitos científicos, mas sobre sua vida amorosa.
A imagem mostra, lado a lado, duas fotografias de um casal em seu casamento, comparando o registro histórico em preto e branco à esquerda com a recriação em cores de uma cena do filme “The Theory of Everything” à direita, ambos vestidos com trajes de noiva e noivo semelhantes e segurando buquês de flores, com o noivo apoiado em uma bengala em cada foto.

Descrição da imagem: A imagem é uma montagem dividida verticalmente que compara uma fotografia real à esquerda com uma cena de filme à direita.

No lado esquerdo, em preto e branco, estão o físico Stephen Hawking e sua primeira esposa, Jane Wilde, no dia de seu casamento na década de 1960. Stephen é um homem branco, magro, usando óculos de aros grossos e escuros, terno escuro e gravata clara. Ele está de pé, sorrindo timidamente, e apoia-se em uma bengala segurada com a mão direita. Ao seu lado, Jane, uma mulher branca de baixa estatura, sorri para a câmera. Ela tem cabelos curtos escuros com as pontas viradas para fora, usa um véu curto e um vestido de noiva branco com mangas longas de renda. Ela segura um buquê de rosas claras em cascata. Ao fundo, vê-se uma parede de tijolos escuros e vegetação rasteira.

No lado direito, em cores, está a recriação da mesma cena para o filme, com os atores Eddie Redmayne e Felicity Jones. A iluminação é nítida e as cores são vivas. Eddie, interpretando Stephen, imita a postura corporal, usando óculos similares, terno escuro com uma flor amarela na lapela e segurando uma bengala de madeira clara, enquanto segura a mão da noiva. Felicity, interpretando Jane, usa uma réplica fiel do vestido de noiva e do véu, segurando um buquê de rosas brancas misturadas com folhas verdes. O fundo mostra uma parede de pedra clara e um jardim florido.

Na parte inferior central, sobrepondo a divisão das imagens, está o logotipo do filme em letras brancas serifadas sobre um fundo preto discreto, escrito em inglês: “The Theory of  Everything” (A Teoria de Tudo).

A profecia feita pelo cientista Stephen Hawking em entrevista para a BBC em 2014  é um alerta contemporâneo: “O desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana”. O físico teórico, que sofria de esclerose lateral amiotrófica (ELA), usava como forma de comunicação diversas tecnologias que já em 2014 faziam uso de uma forma básica de IA.

O filme “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything), lançado no mesmo ano da entrevista, mostra um pouco dos usos que Hawkins fazia dessas tecnologias. Mas o que nos interessa aqui é ver como pessoas com doenças degenerativas são representadas no cinema em relação à vida amorosa.  

Na atualidade, a visibilidade de casais compostos por uma pessoa com e outra sem deficiência nas redes sociais expôs uma ferida social: a incapacidade coletiva de crer que um corpo com deficiência possa ser um território de desejo genuíno. Ao se deparar com esses relacionamentos, o tribunal da internet frequentemente oscila entre a glorificação da caridade ou a acusação de abuso e interesse financeiro. Essa desconfiança sistêmica revela um capacitismo profundo, que assume que, na ausência de uma troca justa de capital estético ou funcional, só pode haver exploração. O desafio contemporâneo é reconhecer que a vulnerabilidade física não é sinônimo de incapacidade de consentimento. Pessoas com deficiência não são apenas objetos de cuidado ou vítimas em potencial; são sujeitos desejantes, complexos e plenamente capazes de construir laços afetivos que não se baseiam em servidão, mas em reciprocidade.

Nesse contexto, o drama biográfico britânico, dirigido por James Marsh e produzido pela Working Title Films, traz uma adaptação do livro de memórias “Travelling to Infinity: My Life with Stephen“, de autoria de Jane Hawking, a primeira esposa do cientista. A trama se inicia na juventude do casal Stephen Hawking (Eddie Redmayne) e Jane Wilde Hawking (Felicity Jones). O casal se envolve durante a faculdade, em Cambridge, nos anos 1960. O  ponto de virada da trama é o diagnóstico de uma doença neurodegenerativa progressiva que atinge os neurônios motores no cérebro e na medula espinhal (ELA). Stephen, aos 21 anos, recebeu um prognóstico de apenas dois anos de vida. Entretanto, apesar da gravidade da doença, que o deixou progressivamente incapacitado, Jane o apoiou durante 30 anos; casaram-se, tiveram 3 filhos e Stephen continuou a desenvolver suas teorias e a desafiar as expectativas médicas, vivendo até os 76 anos. No entanto, a dedicação de Jane e os desafios da doença levaram a um desgaste na relação, que culminou na separação do casal na década de 1990.

O filme, contudo, atribui um peso dramático exagerado ao sofrimento e à exaustão de Jane à medida que a narrativa da deterioração física de seu marido avança. Dessa forma, a crítica se enquadra justamente no fato de que a deficiência de Stephen é frequentemente apresentada não como sua experiência vivida, mas como o “fardo” que a esposa teria que carregar. Obviamente, os cuidadores de pessoas com deficiência enfrentam uma realidade difícil. Não se trata de negar isso, mas de apontar as ambiguidades no filme.  Com isso, vemos que a deficiência é o tema, mas o que acontece é a marginalização do protagonismo da pessoa com deficiência.

Nesse âmbito, percebe-se que o filme reflete a lógica que o Modelo Social de Deficiência busca criticar. Esse modelo propõe que a “deficiência” não é uma característica intrínseca da pessoa, mas sim o resultado da interação entre um corpo com impedimentos e uma sociedade, que, em geral, não está preparada para acomodá-lo. A obra reforça como a sociedade enxerga e coloca a deficiência em um lugar limitado de escolhas, de legítima vontade, de prazer e de individualidade. 

No entanto, a existência de uma corponormatividade, ou seja, a ideia de um corpo “normal” como padrão que reprime, molda e dita o que deve ser aceito, reforça a ideia capacitista, que vê o padrão como algo superior e que existe uma falha na deficiência. Muitas vezes, a pessoa com deficiência é infantilizada ou tratada como “angelical”. Isso é visto durante o filme, quando o físico continua a formular pesquisas e teorias, havendo um reforço compensatório da inteligência que enfatiza a representação heróica “apesar” da deficiência.

A deficiência é um fenômeno socialmente construído, e a avaliação social que se tem dela é a de que ela explicita um corpo não funcional e considerado imperfeito, impondo ao sujeito uma desvantagem social. O corpo com deficiência é visto como distante do modelo de beleza, e o interesse do “outro” por esse corpo é interpretado como algo estranho, e não como uma manifestação legítima do desejo humano.

Com isso, a doença progressiva de Stephen é vista no filme como um obstáculo direto ao romance e à intimidade. Isso alimenta a narrativa capacitista de que existia ali um “fardo” pesado demais para carregar, colocando a esposa como uma heroína por “aguentar” a situação por tanto tempo. Essa lógica fica evidente na forma desigual como o roteiro trata os novos relacionamentos. A atração de Jane por Jonathan é retratada com complacência, quase como uma necessidade emocional justificada pelo cansaço do cuidado. Em contrapartida, o envolvimento de Stephen com sua enfermeira, Elaine Mason, surge de forma negativa como uma quebra de expectativa fundamental: ele prova que o corpo com deficiência não é assexuado ou passivo. Ao se apaixonar e iniciar uma nova relação, Stephen reivindica sua própria agência e desejo, desafiando a ideia de que ele era apenas uma ‘propriedade’ sob a tutela da esposa, incapaz de exercer sua virilidade ou de decidir pelo fim do casamento. 

O julgamento social sobre o fim do casamento revela a face mais perversa do capacitismo: a armadilha da gratidão. Enquanto o envolvimento de Jane com outro homem é socialmente perdoado e compreendido como a busca legítima por amparo e virilidade, elementos que a sociedade julga ausentes no marido, a nova relação de Stephen é condenada como ingratidão. A lógica vigente é a de que a pessoa com deficiência, por ser alvo de cuidado, contrai uma dívida impagável de submissão ao seu cuidador. Ao ousar deixar Jane, Stephen quebra o script do ‘coitadinho grato’ e reivindica uma autonomia afetiva que a sociedade não está pronta para conceder a corpos que considera inválidos.

Ademais, o filme apresenta uma contradição ao celebrar a genialidade de Stephen. Por um lado, ele é mostrado como um gênio da Física que evidencia a potência de um corpo com deficiência ao continuar suas pesquisas. Por outro lado, essa genialidade é usada pela narrativa quase como uma “compensação” pela sua condição, caindo na armadilha da “superação”. Isso ignora o que o próprio Hawking declarou: “Sem imperfeição, você e eu não existiríamos”. Essa fala é um convite à aceitação das falhas e do caos como elementos constitutivos da existência, o oposto da busca pela perfeição inatingível que o capacitismo exige.

O Modelo Social e os Estudos da Deficiência (Disability Studies) argumentam que a deficiência não é algo a ser superado. Perspectiva que nos permite ver que o capacitismo é uma barreira que vai além do físico, interferindo no direito de escolha e na percepção da individualidade. Com isso, não é necessário enxergar o Stephen Hawking apesar da ELA, mas sim com a ELA, entendendo que a cadeira e o sintetizador de voz mostrados no filme fazem parte de quem ele é e de como ele produz ciência.

Em sua obra Medo de um Planeta Aleijado (2016), Marco Gavério nos provoca ao dizer que o capacitismo impede a consideração de que é possível “andar sem ter pernas, ouvir com os lábios, enxergar com os ouvidos”.  Defendo que é necessária uma mudança de mentalidade, mas ela deve vir acompanhada da quebra da normatividade funcional, ou seja, não apenas uma mudança de consciência da sociedade, mas nas estruturas sociais das leis, na arquitetura, na economia, para que a sociedade pare de tentar “incluir” de forma superficial e passe a, de fato, enxergar as potencialidades do outro como alguém igual, digno de direitos, vontades e desejos que constituem o sujeito em sua totalidade.

Conclui-se que o filme “A Teoria de Tudo” expõe o cerne do preconceito capacitista: a ideia de que amar uma pessoa com deficiência é, inerentemente, um ato de sacrifício ou heroísmo, e não simplesmente uma manifestação humana de afeto. A verdadeira “superação” exigida não é a da pessoa com deficiência “apesar” de seu corpo, mas a da própria sociedade em finalmente desassociar a deficiência de conceitos como “fardo”, “invalidez” ou “assexualidade”. O amor, o desejo e a intimidade não são privilégios de “corpos normativos”. Reconhecer a pessoa com deficiência como um sujeito de desejo, plenamente capaz de amar e ser amada por quem é, e não como um objeto de caridade ou cuidado, é o passo fundamental para desmantelar a visão social que, de fato, a invalida e limita.

O filme pode ser encontrado nas plataformas de streaming Netflix, Globoplay e Star+.

Esta análise foi produzida no âmbito da disciplina Formação Transversal em Mídia, Deficiência, Corpo e Acessibilidade, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no segundo semestre de 2025, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz em parceria com o monitor Ademar Alves de Oliveira Júnior.

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