FRONTEIRAS DO OLHAR: a vida entre o palco artístico e a arena esportiva

Este texto analisa a primeira parte do espetáculo Disabled Theater, criado pelo coreógrafo francês Jérôme Bel em colaboração com a companhia suíça Theater HORA, numa perspectiva expansiva, acolhedora e de inclusão.
Mulher em cena de dança contemporânea, em palco escuro, aparece em primeiro plano com cabelos longos ruivos em movimento, vestindo regata rosa e calça esportiva verde, enquanto executa um passo com os braços abertos e pés em meia ponta; ao fundo, uma fileira de cinco pessoas sentadas observa a apresentação, com expressões diversas e roupas casuais coloridas, sugerindo um grupo heterogêneo em contexto de teatro inclusivo.

O espetáculo estreou em Bruxelas, na Bélgica, em 2012. Para a análise, foi assistida à gravação disponibilizada no YouTube pelo Museu de Arte Moderna de Buenos Aires em 2014. Analisamos as dinâmicas do espetáculo, observando suas nuances, em especial em relação aos corpos dos atores e atrizes, bem como suas participações em cena. Buscamos identificar como ocorrem os processos de expansão desses corpos em cena e como são lidos em ação performática teatral pela plateia.

Apresentaremos, em paralelo, o corpo em ação esportiva, como lido por partes da mídia especializada. Nesse sentido, consideramos a reflexão proposta pela pesquisadora Tatiane Hilgemberg (2019) sobre a dualidade da representação midiática dos corpos, histórias e imagens de pessoas com deficiência, lidos como diferentes, como se não se enquadrassem na sociedade. Representações essas que podem desenvolver no público um misto de piedade e inspiração. 

Nesse aspecto, interrogamos se artes do corpo (dança, teatro, performance, etc…) conseguem romper as barreiras capacitistas e discriminatórias. Como se dão essas relações no palco? No caso do espetáculo Disabled Theater de Jérôme Bel, observamos como as dinâmicas vão sendo apresentadas aos poucos. Entendemos que, ao performarem o si para o público, os corpos tendem a sensibilizar e, ao mesmo tempo, espelhar questões da vida cotidiana, ordinária, introspectiva em um formato mais amplo, o de um corpo expandido. 

Em uma ação artística no palco, o entendimento imediato é o de um corpo concentrado, atuando e/ou performando para o público, no caso do ator e atriz. No palco, a ação é daquele momento, sem repetição, espontânea e sem intermédio da mídia. Por outro lado, em uma competição esportiva ao vivo, os corpos dos atletas com deficiência também podem ser lidos como concentrados, prontos para uma ação esportiva em competição. Porém, nas duas situações, se houver uma mediação, o resultado pode ser alterado quanto ao sentimento do público. 

Em uma competição esportiva, como as Paralimpíadas, por exemplo, frequentemente vemos parte da mídia utilizando a competição para direcionar os sentimentos da plateia no que diz respeito à superação do atleta, à sua luta contra limitações físicas, entre outros processos capacitistas. 

Vamos analisar por partes o espetáculo Disabled Theater.

1º ATO

11 atores e atrizes. Palco com onze cadeiras ao fundo; uma pessoa entra e explica que ela foi contratada para ser a tradutora linguística do espetáculo e que entrarão 11 pessoas, uma a uma, e ficarão em pé em frente ao palco, olhando para o público. Uma sai e outra entra.  A primeira entra. Fica um minuto olhando para o público e sai. E assim, segue-se uma a uma até chegar à décima primeira. No começo do espetáculo, a apresentação do que vai ocorrer é uma forma de introduzir a plateia no espetáculo. É como se fosse um convite para as pessoas adentrarem aos poucos nas propostas do coreógrafo Jerôme Bel. 

Diferente do que Tatiane Hilgemberg afirma em suas análises sobre mídia e paralimpíadas: “… a mídia tem tratado o atleta como vítima como estratégia para melhor atrair a atenção do público e ‘vender’ o seu produto” (2018). A intenção do espetáculo, em contraposição, não parece ser comercial e querer vender algum produto, mas sim colocar diante da plateia um corpo olhando e sendo olhado. Sua textura, sua respiração, sua cor, seu olhar, seus movimentos mínimos. A troca é estabelecida intencionalmente. 

2º ATO

O palco continua com as cadeiras ao fundo. Um a um, cada ator e atriz que são chamados pelos nomes, vão ao centro do palco, onde está o microfone, falam seu nome, idade e profissão. Depois se sentam nas cadeiras posicionadas ao fundo. Ao se sentarem, cada um se expõe para a plateia. Inquietudes com o corpo, acomodações com o assento, observações, entre outras movimentações corporais. Tanto na apresentação quanto ao assentarem, a disposição dos corpos é importante na relação entre palco, espectador e, no nosso caso, vídeo. Embora seja gravada, a atenção está voltada para essa relação do público e dos atores e atrizes, e não para a câmera. Não é um performar para a câmera. Assim como em competições esportivas, a ação daqueles corpos é voltada para as competições e não para câmeras, embora ultimamente tenham milhares e milhares delas espalhadas nas competições, flagrando ou induzindo comportamentos . Um exemplo são as comemorações de uma vitória, em que normalmente atletas buscam as câmeras para deixar seu recado, dançar ou mesmo comemorar. 

Mas, nos dois casos, existem elementos a mais, tanto no cenário esportivo quanto no cenário artístico, que contribuem para que o público fixe sua atenção. As autoras Amanda Paola e Bianca Natália Poffo (2019) comentam que os atletas paralímpicos tendem a ser retratados ou como vítimas de suas deficiências e/ou como super-heróis. Tendo a pensar que, devido à natureza competitiva ou no palco apresentando artisticamente, essa “vitimização” perde seu caráter devido à atmosfera instalada tanto na competição quanto no palco. A performance artística talvez seja um espelho mais explícito para o público sobre quem é aquele artista, se comparada às competições esportivas, nas quais o público se limita a torcer e a pouco se indagar. Arrisco a dizer que isso é ainda mais evidente no caso de uma transmissão esportiva com a condução de um narrador. 

3º ATO

Com os atores e atrizes sentados, novamente um a um são chamados pelos nomes e são convidados a falar de suas (in)capacidades. A primeira pessoa informa que sua dificuldade é na aprendizagem. Informa que esquece com frequência. A segunda pessoa informa que tem síndrome de Down e deficiência intelectual. A terceira pessoa informa que tem dificuldade na aprendizagem, se acha mais lenta e tem dificuldades em viver assim. A quarta pessoa informa que não sabe. A quinta descreve que tem algo nos dedos e com frequência os coloca na boca. Ela mostra como coloca os dedos na boca. A sexta pessoa informa ser mais lenta que os demais e fala aos quatro cantos, e que, quando ela fala, ela é notada. A sétima informa ser lenta. Ser lento perturba. Ela informa que tem síndrome de Down. 

Na sequência, a oitava pessoa informa que tem síndrome de Down. A nona se considera um adulto incapacitado e informa que é uma pessoa com deficiência e fala quando pode. A décima diz que é  uma pessoa com síndrome de Down (na legenda do YouTube usa o termo mongólico). Ela descreve ser uma mongólica de merda. E que ela fala muito. E, por último, a décima primeira pessoa informa que estamos em julho, mês do seu aniversário, e que todos deviam cantar. E, após todas as pessoas sentarem, é pedido que elas se preparem para um balé individual. O compartilhamento de suas diversidades apresenta ao público a multiplicidade humana e suas diferenças. 

Cada pessoa, sendo autista ou não, com deficiência ou não, possui suas características próprias. Tanto os atores e atrizes como os atletas e as atletas têm o direito à inclusão. Mesmo o autismo, não é igual para todo mundo. Cada pessoa autista, cada pessoa com deficiência, tem suas vivências, relações, dificuldades, desenvolvimento de habilidades e de ser e estar no mundo. 

Importante também pensarmos o lugar de gênero, principalmente o feminino, quando performam nas redes ou no dia a dia, suas relações, singularidades e diálogos com o mundo. Não é sobre heroísmo, sobre serem guerreiros ou guerreiras, e sim terem direito à inclusão. O estereótipo de super-herói lida com a luta comovente de alguém que enfrenta o trauma da deficiência e, com grande coragem, perseverança e determinação, triunfa ou sucumbe heroicamente, como comenta Tatiane Hilgemberg (2018). Aqui, lidamos com o performar a vida e seu potencial no palco, performar a vida e seu potencial enquanto atleta. Podemos ir além das nossas ações de inclusão, mesmo em um ecossistema de consumo e mercado. Contudo, o papel tanto das mídias quanto do público/espectador é fundamental para criar mecanismos de conexão, inclusão e conscientização, visibilizando as experiências das pessoas autistas e das pessoas com deficiência, ao invés de reproduzir estereótipos. 

Disabled Theater (Alemanha, com legendas em espanhol)

Direção: Aldo Lee e Jérôme Bel

Atores e atrizes: Remo Beuggert, Gianni Blumer, Damian Bright, Matthias Brücker, Matthias Grandjean, Julia Häusermann, Sara Hess, Miranda Hossle, Peter Keller, Lorraine Meier e Tiziana Pagliaro. 

Coproduzido por Theater HORA e Jérôme Bel – Duração:1h37.

Referências 

HILGEMBERG, Tatiane. Jogos Paralímpicos: história, mídia e estudos críticos da deficiência. Recorde – Revista de História do Esporte, v. 12, n. 1, 2019.

OLIVEIRA, Amanda Paola Velasco; POFFO, Bianca Natália; DE SOUZA, Doralice Lange. É melhor ser super-herói do que ser a vítima: um estudo sobre a percepção de atletas e ex-atletas com deficiência visual sobre a cobertura midiática.  Movimento – Revista de Educação Física da UFRGS. Porto Alegre, v. 24, n. 4, p. 1179-1190, out./dez. de 2018.

Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Corpo, Deficiência e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2026.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz.

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