Autonomia e desejo no mangá Boys Love BL “Kimi no Gin no Ashi”

Quadrinho japonês conta a relação entre o ex-pianista japonês Susumu e o atleta holandês Tobias, que utiliza uma prótese na perna esquerda.
Um painel de quadrinhos em estilo mangá e em tons de cinza. No lado esquerdo, ao fundo, uma pessoa totalmente agasalhada com roupas de inverno, capuz de pelúcia e óculos de esqui escuros está sentada em um banco, apoiando o rosto nas mãos em uma expressão de tédio ou espera. No primeiro plano, à direita, o corpo de outra pessoa em pé surge cortado, vestindo uma jaqueta cinza e luvas pretas, ocupando grande parte da composição. O cenário é minimalista e limpo, delimitado por uma borda preta grossa.

Narrativas midiáticas têm o poder de reforçar estereótipos ou de tensionar as estruturas que marginalizam grupos minorizados. No escopo das representações de pessoas com deficiência, o mercado de quadrinhos japoneses tem apresentado obras que merecem atenção. O objeto de análise deste ensaio é o mangá Boys Love (BL) “Kimi no Gin no Ashi” (2019), de autoria de Hino Youhe. A história conta a relação entre o ex-pianista japonês Susumu e o atleta holandês Tobias, que utiliza uma prótese na perna esquerda. Para quem não está familiarizado, BL refere-se a um popular gênero de mangás e narrativas japonesas centrado no desenvolvimento de relacionamentos românticos e homoafetivos entre homens.

Capítulo 01 – Susumu vê Tobias na TV de um bar. Fonte: Recorte do mangá ‘Kimi no Gin no Ashi’ (Hino Youhe). Tradução livre do inglês gerada por Inteligência Artificial.

Amputado na região da coxa, Tobias apresenta uma relação extremamente orgânica, técnica e resolvida com o seu próprio corpo. Susumu inicialmente se apresenta apenas como um viajante rodando a Europa. No entanto, o verdadeiro peso de sua jornada é o luto por sua identidade profissional: Susumu era um pianista profissional e considerado um prodígio, mas não conseguiu manter o seu desempenho após um acidente de trânsito que afetou os movimentos precisos da sua mão dominante.

Susumu trata o corpo de Tobias com curiosidade genuína e sem piedade, exatamente o que o snowboarder precisava para se sentir desejado no presente. Por outro lado, Tobias é quem confronta o luto não resolvido de Susumu, incentivando-o a voltar a tocar piano. Ele argumenta que, mesmo que não seja tão impecável quanto antes, ele ainda poderá tocar. Ambos estão, à sua maneira, reescrevendo as possibilidades de seus próprios corpos após perdas traumáticas.

Capítulo 1 – Tobias faz uma piada com Susumu enquanto se preparam para dormir. – Fonte: Recorte do mangá ‘Kimi no Gin no Ashi’ (Hino Youhe). Tradução livre do inglês gerada por Inteligência Artificial

Apesar de curta, contando com apenas seis capítulos, a obra foge das armadilhas melodramáticas habituais, sem deixar de entregar o romance que os fãs do gênero esperam. 

O CORPOMÍDIA E A CORPONORMATIVIDADE

Logo nos primeiros capítulos da obra, a relação de Tobias com sua prótese é apresentada com ênfase na tecnologia e na adaptação. O personagem utiliza uma prótese específica para o dia a dia, capaz de coordenar os movimentos das articulações e suportar o peso do corpo, e outra desenvolvida exclusivamente para a prática esportiva. Essa representação dialoga frontalmente com o conceito de “corpomídia”, formulado originalmente por Helena Katz e aplicado aos estudos da deficiência no artigo “Desconstrução da bipedia compulsória na Dança”, de Carlos Eduardo Oliveira do Carmo (Edu O.) e Fátima Campos Daltro de Castro. Segundo os autores, o corpo não é uma máquina estática ou um produto finalizado, mas um sistema vivo, cognitivo e auto-organizador, que está em constante fluxo de trocas de informações e adaptações com o ambiente. A prótese de Tobias não é retratada como a substituição de uma “falta” trágica, mas como uma atualização de seu corpomídia para responder às leis físicas da gravidade e do esporte.

Ao evidenciar a fluidez e a potência do corpo com deficiência, o mangá desafia o que Edu O. define como “bipedia compulsória”. Em sua “Carta aos Bípedes” e no artigo mencionado, o autor explica que a bipedia não é meramente a locomoção sobre dois membros, mas uma estrutura política, social e cultural que determina padrões normativos e excludentes. Essa lógica bípede subjuga os corpos que escapam à norma, classificando-os como inaptos ou incapazes. Na obra, Tobias é dinâmico e plenamente funcional, o que questiona a ideia de que o corpo bípede padrão é o único modelo de normalidade viável.

Os capítulos mais íntimos que o digam…

PISTAS DE NEVE COMO UM  P A L C O

O desenvolvimento do enredo consolida Tobias não apenas como interesse romântico, mas como um atleta paralímpico de alto rendimento focado em suas competições. A representação midiática de atletas com deficiência é, historicamente, um terreno minado para o jornalismo. Tatiane Hilgemberg, no artigo “Do coitadinho ao super-herói: representação social dos atletas paralímpicos na mídia brasileira e portuguesa”, aponta que a mídia costuma enquadrar esses indivíduos em dois polos estigmatizantes: a vítima digna de pena (o “coitadinho”) ou o ser com habilidades quase mágicas que triunfa a despeito da tragédia (o “super-herói”).

Essa mesma dicotomia é analisada por Amanda Paola Velasco de Oliveira, Bianca Natália Poffo e Doralice Lange de Souza em um artigo sobre a percepção de atletas e ex-atletas com deficiência visual sobre a cobertura midiática. O estudo intitulado “É melhor ser super-herói do que ser a vítima: um estudo” demonstra que os próprios atletas repudiam o estereótipo do “coitadinho” por fomentar preconceitos. Embora alguns tolerem a imagem do “super-herói” por ser menos danosa que a vitimização, a maioria prefere ser reconhecida simplesmente pelo seu alto rendimento esportivo, sem o verniz do heroísmo folclórico. O mangá acerta ao tratar Tobias exatamente sob essa ótica: ele é um atleta de elite focado em seu esporte, com frustrações reais e treinamentos árduos, cuja função na trama não é fornecer lições de moral edificantes para Susumu ou para o leitor.

CAPACITISMO E SEXUALIDADE

A maturidade de “Kimi no Gin no Ashi” consolida-se na forma como aborda a sexualidade e a autonomia de Tobias. O capacitismo, como argumenta Gustavo Martins Piccolo no artigo “Capacitismo: uma categoria útil para a análise histórica das marginalizações sociais”, opera como uma bússola moral que classifica indivíduos em uma hierarquia baseada em ideais de produtividade e beleza. Não raro, associa a pessoa com deficiência a estereótipos como a assexualidade ou a dependência extrema. 

Ao retratar o relacionamento íntimo entre Tobias e Susumu, o mangá recusa a infantilização e a assexualidade frequentemente impostas pelo imaginário capacitista. Em uma cena de intimidade, Tobias hesita, mencionando que é a primeira vez que faz sexo desde que perdeu a perna, e Susumu age com naturalidade, perguntando se ele quer tirar a prótese. O ponto de ruptura mais importante ocorre quando Tobias questiona Susumu sobre o fato de ele não ter exigido saber os detalhes traumáticos do acidente que causou a amputação. Tobias afirma que queria apenas estar com alguém que não conhecesse seu passado e que o desejasse puramente como um parceiro sexual.

That’s all folks!

Capítulo 5 – Fonte: Recorte do mangá ‘Kimi no Gin no Ashi’ (Hino Youhe). 

Com Susumu lidando com a perda da fluidez nas mãos para o piano e Tobias deslizando pelas montanhas com sua prótese, o mangá recusa o arquétipo do herói intocável e valida a autonomia e o desejo de seus protagonistas. A obra demonstra que é possível construir ficção com representatividade real, em que personagens que fogem à norma têm o direito fundamental de falhar, de competir, de amar e de não dever satisfações a uma sociedade normatizadora.

E, para você, querido leitor ou leitora, que chegou agora no mundo dos romances ilustrados, deixo aqui algumas indicações de mangás e manhwas na temática Boys Love que tenham personagens com deficiência:

  • Sign (+18) – Obra coreana com protagonista surdo e dono de uma cafeteria. Este foi meu primeiro BL com algum personagem com deficiência. Ele é bem longo, com mais de 100 capítulos, mas super vale a pena.
  • I Hear The Sunspot (+14) – Neste mangá japonês, Kouhei, um de nossos protagonistas, tem perda auditiva. Este se passa no contexto universitário e possui adaptação para série.
  • After Staring at the Starry Sky (+18): Protagonista cadeirante, fotografia, arte e muito amor. Esse é bem curtinho também, vai lá!

Inclusive, é possível encontrar as duas últimas opções normalmente em marketplaces. Boa leitura!

Este ensaio foi produzido no âmbito da disciplina Mídia, Corpo, Deficiência e Acessibilidade, da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no semestre de 2026.1, ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz.

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