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EP 6: A maternidade para além do aspecto biológico

Pesquisa propõe reflexão sobre os atravessamentos de gênero, classe, raça, território e deficiência em um perfil digital de maternagem atípica em uma rede social

Ouça o episódio abaixo pelo Spotify ou em uma das plataformas a seguir: Deezer, Amazon Music ou YouTube Music.

Leia abaixo a transcrição do episódio:

MARCOS

Olá, Você está no Podiversas e essa é a nossa segunda temporada. Nosso podcast é um espaço de troca e diálogo onde a ciência e o conhecimento estão a favor da sociedade. Nesta temporada, damos voz aos pesquisadores do projeto Somos Diversas e seus trabalhos apresentados no primeiro Simpósio de Acessibilidade e Comunicação Somos Diversas, que aconteceu na Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa. Em cada episódio, você vai conhecer estudos, ter acesso a dados, vivências e iniciativas que buscam transformar realidades e diminuir barreiras físicas, comunicação atitudinais e institucionais que impactam pessoas com deficiência.

MARCOS

No episódio de hoje conheceremos o trabalho da professora doutora Tamires Coêlho da UFMT, Universidade Federal de Mato Grosso, intitulado “Entre maternidade e infância atípicas, desafios à cidadania no perfil @típicamentematerna”. Se prepare, pois o conhecimento inclusivo começa agora.


TAMIRES

Eu tenho trabalhado bastante nas minhas pesquisas de gênero com a perspectiva da maternidade. Tenho orientado trabalhos nesse sentido, pensava vulnerabilidades que atravessam a maternidade, pensar questões interseccionais também. Então, o meu slide aqui de apresentação, a capa dele está aqui trazendo o título e o subtítulo da minha fala, que é “Entre maternidade e infância atípicas, desafios à cidadania no perfil @tipicamentematerna. Ele está com fundo preto, letras brancas, todos os slides vão manter esse padrão com as cores diversas na parte inferior, com a logo da marca gráfica do projeto Somos Diversas. Então, não é uma pesquisa que eu já tenha dados consolidados, são questionamentos, a partir de uma observação exploratória que eu tenho feito. 

Eu já tinha o hábito de seguir também, digamos assim, perfis, não só individuais, mas coletivos, que envolvem mães, tanto mães atípicas quanto maternidade atípica. E aí a gente tem uma diferença. A mãe atípica é a mãe com deficiência. E a maternidade atípica é o processo de maternagem, maternidade e maternagem que envolve um filho, uma filha com deficiência. E aí a gente começa a pensar em uma separação. A maternidade vai ser pensada a partir de uma condição biológica, mas a gente não pode trazer esse aspecto biologizante da maternidade como algo que a define. Porque se a gente for nesse rumo, as pesquisas de gênero, as pesquisas que envolvem as desigualdades de gênero, elas vão também ir nessa contra-corrente do biologizante, assim como a gente faz também no campo da acessibilidade. A gente não deixa que aquilo seja essencializado no âmbito biológico. 

Então a maternidade, embora envolva condições biológicas, ela é um lugar social, é uma condição social. Não tem como a gente definir o que é ser mãe sem pensar isso dentro de uma série de processos de sociabilidade. E aí eu vou trazer aqui uma citação de um trabalho que eu e a professora Néala fizemos, em outra perspectiva, sobre imagens de controle que envolvem mães negras na mídia: “Embora a gestação, a amamentação, sejam possibilidades restritas a um corpo lido como feminino, e aqui incluo pessoas não binárias, que também têm essa possibilidade, é no âmbito da cultura e de uma dada configuração histórica que classificamos e identificamos quem são os seres humanos que se configuram como aptos a serem chamados de mãe, assim como quais são as cobranças e funções que a maternidade demanda”. 

Então a gente pensa assim, “ah, Tamires, mas se você pode gerar uma vida, você pode ser chamado de mãe”. Não necessariamente, quando a gente pensa a maternidade numa perspectiva social, a gente tem corpos que são vistos como ideais para a maternidade e corpos que não são vistos como ideais. Tanto é que a gente tem historicamente uma série de processos, digamos assim, de situações históricas, contextos históricos que vão propor esterilização de mulheres com deficiência, de mulheres negras e aí vai, de mulheres em várias condições de vulnerabilidade. 

Então eu começo aqui a reflexão com a provocação também no sentido de o que é um exercício adequado da maternagem, porque quando a gente pensa assim, ah, o que é ser mãe, o que envolve ser mãe? E como isso vai atravessar as pessoas, sobretudo as mulheres, a gente tem uma idealização que é racializada, que é genderizada, que é dali numa perspectiva de classe, que é trazida numa perspectiva religiosa também, aquela coisa do ser mãe é para descer no paraíso, que não é. Então todas essas coisas são atravessadas por discursos religiosos. A gente não pensa em uma maternidade que envolve, por exemplo, uma pessoa no terreiro. A gente pensa em uma maternidade cristã, ainda que essa criança possa não ser batizada numa igreja, ela ainda é cristã. A própria maternidade, a maternagem, lida a partir de um contexto cultural cristão. E aí a gente vai ter nessa maternagem definições específicas de cor, etnia, classe, território, sexualidade. A gente não vê, por exemplo, mães lésbicas como adequadas para a maternagem. A gente não vê mulheres negras como adequadas para a maternagem.

 “Ah, Tamires, como assim?” Boa parte das mães do Brasil, assim como das mulheres, 

são mulheres não brancas.  E aí é uma coisa que eu chamei a atenção com Néela nesse trabalho que a gente fez anteriormente, que é o seguinte, a gente tem mulheres cis aqui, que ja devem ter passado, estão passando nesse momento – porque não tem ninguém menor de idade aqui – por uma cobrança que vai atravessá-las, que você só é uma mulher completa se você for mãe. Numa perspectiva de senso comum. Por outro lado, que o Estado, eu penso Estado, sistema brasileiro, governo e tal, que envolve, por exemplo, instituições policiais, quem é que pode maternar de fato? Porque há uma cobrança social de que a gente seja mãe, mas as mães negras vivem perdendo seus filhos com o genocídio dos jovens periféricos. Então, às mães negras não é permitida a maternagem. O próprio Estado tira esse direito. 

Então, a gente vai ver aí questões que vão envolver também pessoas com deficiência, sobretudo quando a gente vai pensar essa questão da deficiência, como Flávia estava falando ontem, como um índice para a gente pensar questões de empobrecimento. Então, a diferença entre maternidade e maternagem, e aqui eu estou partindo de vários autores, enquanto a maternidade é tradicionalmente permeada pela relação sanguínea entre mãe e filho, a maternagem é estabelecida no vínculo afetivo do cuidado e acolhimento ao filho por uma mãe. O modo como se dará esse cuidado irá depender dos valores socialmente relacionados ao que é ser mulher e ao significado de um filho em determinado contexto cultural. 

Por que é importante a gente pensar nisso também? Essa questão do contexto cultural, porque em algumas sociedades não regidas por uma lógica ocidental, a infância e a criança são vistas como responsabilidade coletiva. Aqui no Brasil, entre nós, que vivemos uma vida baseada por essa lógica ocidental, é como se fosse uma escolha individual. O problema é seu. Não, para a gente sobreviver, para a gente envelhecer, e ter uma qualidade de vida, a gente tem que ter pessoas trabalhando para que a sociedade funcione, e a gente consiga descansar no que chamam de melhoridade. Só que se a gente não tem essas pessoas, o que acontece é que a gente vai sofrer uma situação de vulnerabilidade muito mais precarizada do que a gente espera. Como pessoas não herdeiras, que eu acho que somos – não tem nenhum herdeiro aqui – a gente já espera uma aposentadoria minimamente precarizada. Se houver aposentadoria, mas, é isso. 

A gente precisa de pessoas jovens trabalhando. É uma questão mínima. Se a gente precisa de pessoas jovens, precisaríamos que essas pessoas estivessem sendo cuidadas coletivamente, porque a nossa sobrevivência depende dessa geração. Eu faço aqui, nesse slide especificamente, nos outros que eu estava lendo também, nesse  slide que eu passei agora, tenho três círculos que eles se encontram, um é de cidadania, o outro é de autonomia e o outro é de vulnerabilidades. Eu já parto de uma perspectiva, desde a minha tese, que não dá para a gente pensar autonomia sem pensar vulnerabilidades. Se não, a gente vai fazer uma perspectiva homogeneizante, a gente vai partir de uma perspectiva que não acolhe as diferenças e a gente vai traçar, como outros autores no Norte Global já fizeram, uma série de preceitos ou de características que você tem que dar um check, e que quando eu, na minha tese, trabalho com mulheres no sertão do Piauí, se eu for parte desses conceitos e desses checks muito exigentes, eu não preciso nem fazer pesquisa, não existe possibilidade de autonomia. Por que? Porque você está exigindo uma coisa que é fora daquela realidade. 

Mas se você entende as vulnerabilidades que atravessam aquelas pessoas, você consegue perceber potencialidades de cidadania ali. Então, a gente, dessa perspectiva, o José Joaquim Passos vai dizer que a proteção pode ser cuidado, mas pode ser controle, e ele vai trazer uma perspectiva de cidadania tutelada. Então, não seria uma cidadania baseada na autonomia, mas na tutela, no controle dessa pessoa. E a cidadania vai remeter à emancipação, à autonomia, à autoafirmação, e, por outro lado, a gente tem também um processo de dependência de um Estado que controla. O Estado controla nossas vidas o tempo inteiro e controla de forma ainda mais. E aí eu diria até violenta, porque temos uma série de violências simbólicas que atravessam as pessoas com deficiência e que não atravessam pessoas sem deficiência. Então, eu trago aqui uma grande questão que me incomoda, que é como é que a nossa sociabilidade e os nossos processos comunicativos vão retroalimentar uma lógica de tutela e como é que a gente aproveita essas brechas para uma perspectiva autônoma. 

A Ariela Zulai vai falar da fotografia como espaço político e a relação com a cidadania em contextos de conflito, extrema vulnerabilidade. Ela vai dizer que as fotografias vão permitir negociações cívicas sobre o assunto que designam sobre seu sentido. Então, a gente vai discutir papéis no espaço civil aí, tanto de quem fotografa, tanto de quem é fotografado, quanto de quem vai apreciar essas fotografias. Então, a gente pode ter nesse processo uma cidadania prejudicada, digamos assim, porque a gente vai ter possibilidades de cidadania que por conta desses processos de sociabilidade e de leitura da realidade e de condições do próprio processo de quem fotografe e quem é fotografado podem levar a um processo de exposição que em vez de ir numa mão de cidadania vai na contramão, digamos assim. 

Tanto José Joaquim Passos quanto Ariela Zulai vão pensar numa perspectiva de relação, de pensar essa cidadania com o Estado. Só que a gente sabe que nessas questões que são atreladas ao Estado existe uma retroalimentação disso em relação às nossas interações do cotidiano, que podem reforçar essa lógica do Estado ou que podem inclusive trazer problemas que o Estado vai ter que lidar. Eu trago aqui agora um print do perfil da Ticamente Materna. É um perfil que tem 214 mil seguidores, é verificado. A mãe se coloca como criadora de conteúdo digital, o profissional dela. Ela teve um histórico de violência obstétrica em várias camadas que levaram ela a ter uma maternidade atípica. Porque Luca, que é filho de Camila, que é quem administra o perfil, a deficiência de Luca é uma paralisia cerebral que foi adquirida com um parto forçado na rede particular de saúde e que levou a uma falta de oxigenação, sofrimento e desmaio do bebê durante o parto. Então, foram uma série de violências que eu não vou trazer aqui e dá para ver facilmente a partir do que está tagueado, do que ela fixa como poxis, mas ela se auto-apresenta assim. Prazer, sou a mãe que ninguém quer ser. Te provo que é possível ser feliz em meio à diversidade, descomplicando a maternidade atípica e traz alguns emojis junto. 

Qual é a minha questão aqui? A partir da minha colega Pamela Caraveiro, de como ela trabalha com a infância, a gente tem uma perspectiva de que os meios de comunicação e as novas tecnologias não só contribuem, como continuam moldando nossa concepção atual de infância, e para moldar uma série de debates, por exemplo, a exposição de crianças na internet, a exposição de crianças que viram memes, a exposição de crianças em fotografias que deveriam circular só no espaço privado e, de repente, estão ali publicamente sendo utilizadas por pessoas que desconhecem aquela criança, aquela realidade, aquele contexto por fotos que vão significar coisas diferentes se a criança for negra ou se a criança for branca, se for uma menina, se for um menino, se for periférica, se não for periférico. Então, a gente tem que considerar a criança em relação ao ambiente midiático e a gente tem um crescente acesso e exposição de crianças nas mídias. 

Então, não só as crianças se apropriam dos dispositivos e elas produzem conteúdo, como elas acessam uma gama de conteúdo extremamente diversa e muitas vezes que vai levá-las a conteúdos violentos. Se alguém quiser entender melhor sobre isso, pode ir atrás de um caso, que é o Elsa Gates, que se deu e foi pouco falado no jornalismo aqui no Brasil, mas que se deu quando você começa a ter uma transferência naquele automático do YouTube da criança dos desenhos para conteúdos eróticos dentro do YouTube. Então, são coisas bem complicadas. A gente tem a exposição familiar nas mídias como um processo complexo porque a sua família constitui também a sua subjetividade, constitui o seu modo de vida, o seu cotidiano e se você se propõe a colocar ali um cotidiano, como é que você vai excluir essas pessoas? Ao mesmo tempo, você tem uma exposição de uma criança e até que ponto a criança pode tomar decisões sobre isso? 

A perspectiva da Pamela Craveiro é que a criança tem que ter autonomia, ela é um ser desejante, ela tem que poder tomar determinadas decisões. Mas a criança pode tomar todas as decisões sobre ela? Não, ela não sabe o nível de exposição, ela não sabe até onde vai chegar, inclusive a gente nem sabe como é que vai ser a socialização dela na adolescência, na vida adulta, com aquele repertório jogado na rede. Então, eu vou trazer aqui uma perspectiva de um olhar interseccional. Eu mudei aqui o meu slide para dois prints pequenos, um que é de um reels que coloca 80 % de desconto na passagem de acompanhante e aí ela vai explicar. Um outro que é point of view, olha lá fazendo a vaquinha na internet, ela nem precisa tanto assim, aí ela bota lá criança típica e põe uma banheira comum de criança que custa R$250, e do lado, uma criança típica e uma cadeira de banho que custa R$3.500,00. Que é a cadeira ideal para o filho dela, que depois ela consegue, e aí ela faz um vídeo com essa criança naquela cadeira e ela coloca que só quem é mãe de uma pessoa com mobilidade reduzida vai conseguir entender “a felicidade que não está cabendo no meu peito nesse momento”.

Só para todos entenderem essa conquista é parecida com o seu primeiro carro, sabe? É um mal comparado, sabe? Porque nada paga o sentimento de saber que a qualidade de vida de um filho está preservada. “Obrigada Jesus e a cada um que nunca solta a nossa mão. Esse sonho é nosso”. E aí ela traz a criança nessa cadeira de banho. Na perspectiva interseccional, e aí eu estou partindo da Lélia Gonzáles, eu estou partindo da Sueli Carneiro, estou partindo também da Patricia Hill Collins, para a gente pensar o seguinte: olha, por mais que você vá ter necessidades específicas que vão atravessar, claro, condições financeiras, nem Luca, nem Camila, são pessoas consideradas empobrecidas. Tem ali uma qualidade de vida, tem um conforto, por mais que seja difícil conseguir ter acesso à informação, compartilhar informações importantes para outras mães atípicas, outras mães que têm maternidade atípica, alias. 

Então como é que você consegue isso? Como é que você consegue 80% de desconto? Por que ela leva o filho dela para fazer tratamento periodicamente no Chile? Então assim, definitivamente é a exceção. Ela não é rica, pode não ser herdeira, mas ela tem um relacionamento estável, ela não foi abandonada pelo pai da criança, já é uma coisa importante, porque a maioria das mães, quando identifica a deficiência da criança, é abandonada pelos genitores, e essa é uma realidade no Brasil. E aí a gente vai ver questões de classe, por que? Nem todo mundo, mesmo com 80 %de desconto, a maioria das pessoas não vai conseguir. 

Essa mobilidade para andar de avião. Você tem a questão da raça, o tempo inteiro você está olhando a partir de uma perspectiva de uma vivência branca, porque são pessoas brancas, então por mais que você vá ter questões de preconceito, elas não serão potencializadas por racismo. Você tem a questão de gênero, por mais que o pai da criança esteja ali no processo, ele é muito menos visível, o que fala muito sobre uma desigualdade de gênero e de uma parentalidade que não é compartilhada da mesma forma. Ser pai é o sonho da maioria das mães que eu conheço, porque ser mãe é muito mais difícil do que ser pai, porque na sociedade a mãe é quem tem que segurar a onda, e o pai é aquilo, como a tese da professora Laura Guimarães lá na UFMG, “Mães cuidam, pais brincam”. Na publicidade o pai está ali para brincar. 

Então você vai ter a questão da maternidade, uma construção de um outro tipo de maternidade que não é a maternidade trazida como ideal entre aspas, que não é a maternidade que toda mulher sonha e tudo mais. Você tem a questão da religião, o tempo inteiro essa questão do cristianismo sendo atravessado. E aí eu trago aqui agora uma série de posts do feed fixo para a gente pensar uma constituição de uma maternagem que, se você não visibiliza o dia-a-dia com o filho, como é que você vai mostrar como é que você faz? Por outro lado, como é que essa criança vai lidar com isso quando ela crescer? Porque ela não tem condições de dizer, primeiro porque ela não verbaliza, mas ela se comunica, mas ela não tem condições, inclusive uma criança sem deficiência, não tem condições de decidir se ela quer ou não aparecer daquela forma, naquelas situações. Então tem muitas fotos, por exemplo, do Luca no hospital. Quem aqui gostaria de ter uma foto sua no hospital circulando nas redes sociais? 

Então são essas questões. É aquela coisa, tipo, ah, eu só tenho a sensação de que viajar com a criança é carregar a casa inteira, mas é carregar a casa inteira no outro nível, porque não é uma criança sem deficiência, você já leva um milhão de coisas, mas tem outras questões, mas ela aparece na academia, quem é que consegue uma rede de apoio para conseguir ir à academia nessas condições? Ela fala ali que ela tem que ir atrás do balde, que ela chutou várias vezes, porque ela não tem condição de ir com a regularidade que ela gostaria, mas a maioria das mães tem sequer como cuidar minimamente de si, no processo de cuidado de seus filhos ou filhas. E aí isso também vai afetar a constituição de redes de solidariedade, que é uma coisa que tem um potencial positivo dentro do Instagram, mas também que vai ter outras questões. 

Então assim, que maternidade atípica é essa? Ela vai romantizar o amor materno, mas ela não romantiza a solidão. Então, por exemplo, nada na terra é mais extraordinário do que o amor de mãe, aquele típico post do Dia das Mães. Então, como se mãe fosse mesmo isso. Por outro lado, isso não quer dizer que ela romantiza a solidão da mulher. Ela diz em um post que filhos não limitam mulheres, mas a falta de rede de apoio, o machismo estrutural é que limitam mulheres que têm filhos. Ou seja, uma posição também muito interessante, porque como ela tem uma audiência de mães que acompanham ela, isso também gera provocações sobre coisas que são naturalizadas no cotidiano. Mas também você vai ver, eu sei que assim, a gente não pode se posicionar sobre tudo o tempo inteiro, mas a gente escolhe se posicionar sobre algumas coisas e outras não. Então, por exemplo, ela se solidariza com quem? Então a gente teve a Tati Machado, que é apresentadora da Globo, que recentemente perdeu bebê por um aborto espontâneo. E ela vai se solidarizar e fazer um post dizendo, quando a mãe perde seu filho, todas as outras perdem um pouco também. Mas não é uma seguidora dela, é uma apresentadora da Globo. Então assim, você vai ali, tem coisas que você vai escolher, e as temáticas você vai escolher abordar ou não. Mas ao mesmo tempo ela está constituindo horizontes possíveis para quem? 

É muito importante a gente olhar e dizer assim, nossa, eu não sabia que havia a possibilidade de, sei lá, conseguir um desconto para um determinado medicamento, entrar na justiça para conseguir um tratamento alternativo e etc. Por outro lado, quem pode ter o nível de conforto que Camila e Luca têm? O acesso à saúde na rede privada? O acesso à avião para fazer consultas periódicas no Chile. Até mesmo um companheiro, mesmo que não divida 50%, você não pode ter. Muitas vezes você não tem nem o genitor – e às vezes é até melhor, segundo algumas colegas. Mas é aquela coisa, você tem também um horizonte possível baseado numa perspectiva cristã e isso faz com que você exclua outras pessoas.


MARCOS

Conhecemos um pouco do trabalho apresentado pela professora doutora Tamires Coêlho. Esperamos que tenha gostado e que possa compartilhar com outras pessoas. Ah, e não esquece de seguir a gente no Instagram, tá? @projetossomosdiversas e também em seu agregador de podcast favorito. Este episódio contou com a edição e locução de Marcos Paki e roteiro de Talita França. 

Gosto sempre de lembrá-los que a inclusão é uma construção coletiva. A Universidade produz pesquisas para auxiliar nessa jornada, mas as mudanças dependem da conscientização e da ação de todos. Continue com a gente nessa caminhada por uma sociedade mais acessível, diversa e plural. Até o próximo episódio! 

O Podiversas é uma iniciativa do Observatório da Linguagem e Inclusão que integra o projeto de pesquisa Somos Diversas, financiado com recursos provenientes da CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.