Neste episódio, a professora Leylianne Alves discute como trabalhar práticas inclusivas na formação de estudantes de jornalismo
Ouça o episódio abaixo pelo Spotify ou em uma das plataformas a seguir: Deezer, Amazon Music ou YouTube Music.
Leia abaixo a transcrição do episódio:
–
MARCOS
Olá, Você está no Podiversas e essa é a nossa segunda temporada. Nosso podcast é um espaço de troca e diálogo onde a ciência e o conhecimento estão a favor da sociedade. Nesta temporada, damos voz aos pesquisadores do projeto Somos Diversas e seus trabalhos apresentados no primeiro Simpósio de Acessibilidade e Comunicação Somos Diversas, que aconteceu na Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa. Em cada episódio, você vai conhecer estudos, ter acesso a dados, vivências e iniciativas que buscam transformar realidades e diminuir barreiras físicas, comunicação, atitudinais e institucionais que impactam pessoas com deficiência.
MARCOS
No episódio de hoje conheceremos o trabalho da professora doutora Leilyanne Alves da UniR, Universidade Federal de Roraima, intitulado “Acessibilidade para Jornalistas, da sala de aula, ao mercado”. Se prepare, o conhecimento inclusivo começa agora.
LEILYANNE
No Brasil hoje são 18,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Brasileiros a partir de dois anos entram nessa conta do IBGE, mas que, na verdade, é um número muito maior. Aqui já tem 9,1%, né? quase 10%, mas esse número é muito maior, porque quem entra nesses cálculos são as pessoas que têm a deficiência, digamos, reconhecida. Quando a gente pensa nessas produções, a gente tem uma sequência de barreiras dentro dos estudos da acessibilidade que vão ser enfrentadas, que devem ser enfrentadas, e entram na perspectiva do modelo biopsicossocial, que não vão trabalhar apenas com as perspectivas de uma doença que tem cura e etc., mas que trabalham com onde estão as barreiras de acessibilidade e como que a gente deve trabalhar com elas. Têm as mais comuns, que a gente conversa sobre, que são as urbanísticas, então de como acessar as cidades, acessar os lugares, enfim, as arquitetônicas de como acessar os prédios, como entrar nos lugares, enfim, e as dos transportes também, que são as mais comuns nas discussões. Então, como pegar um ônibus, como andar na calçada até, tudo bem que seja na urbanística, mas enfim, tudo que a gente tem de trânsito na cidade.
Mas a gente tem outras três que são muito interessantes para a gente pensar dentro da comunicação e dentro do jornalismo. As atitudes, são aquelas barreiras que estão relacionadas com as nossas atitudes. Quando é que eu vou falar sobre isso com os alunos, por exemplo, e quando a gente vai, primeiro, escolher as nossas fontes, que sejam fontes diversas, que sejam fontes de pessoas com deficiência, mesmo em pautas que você não esteja falando sobre o dia de uma deficiência específica ou alguma coisa do tipo, então, que elas estejam presentes em pautas diversas, mas também na forma como se vai entrevistar, aquilo que Regiane até já tinha falado. Então, você não vai falar com o intérprete, você vai falar com a pessoa que você está entrevistando.
Então, assim, a gente tem as atitudes que são capacitistas e que são barreiras e que a gente tenta conversar com os alunos para mudar esse cenário. A gente também tem as barreiras tecnológicas, que aí, algumas, a gente tem gerência e outras não. Então, por exemplo, a gente não consegue modificar tudo na Meta para o Instagram ser acessível, mas a gente tem lá a legenda alternativa que a gente pode botar. Então, vamos colocar a legenda alternativa. Quando você está fazendo um site, mesmo que seja nos principais desenvolvedores de site, você tem ali a opção de colocar também legenda alternativa, de colocar versões diferentes com a audiodescrição, por exemplo, o que a gente vê no YouTube, que você não tem essa possibilidade de ligar e desligar muitas coisas. Então, geralmente tem uma versão do vídeo com a audiodescrição, uma versão do vídeo com libras, uma versão do vídeo com legenda e uma versão do vídeo sem nenhuma dessas acessibilidades.
Então, a gente sempre tentar incluir o que as tecnologias nos permitem e colocar também o que não está necessariamente na tecnologia, mas que está na nossa edição. E a última, as barreiras nas comunicações e na informação que é aqui nos abrange mais especificamente, que é pensando aquilo que eu tinha acabado de falar para o Marcos, né? Se você não faz um conteúdo que seja acessível, você está deixando uma parte de público, de público-alvo de fora. Você está deixando de vender, você está deixando de divulgar, você está perdendo então em não ter a acessibilidade. Isso pensando em como convencer um capitalista a produzir algo.
Mas nas comunicações e na informação, a gente tira, por exemplo, a capacidade de exercer uma cidadania com mais informações. Se você tira as informações, por exemplo, o último que a gente analisou. Nos planos de governo para escolher os prefeitos no ano passado. Vários dos planos de governo não eram acessíveis. Então você está tirando a possibilidade de uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, entender o que aquele candidato está propondo. Então você está tirando dessa pessoa uma possibilidade de exercer uma cidadania mais embasada nas informações.
Então é nisso, é dessas barreiras que a gente está trabalhando. Para os alunos especificamente, o que eu digo nas normas básicas para o jornalismo. Primeiro, a diversidade de pautas e fontes. Então, não trabalhar com pessoas com deficiência só quando é uma efeméride. E trazer essa diversidade nas fontes em quem está falando, em quem é o especialista. E também os conteúdos seriam acessíveis. E aí o que eu trago aqui também para vocês, na base do “se não entregar é zero”. É como que os alunos têm trabalhado a questão da acessibilidade. Então aqui uma matéria que foi publicada lá na UFMT, na disciplina de Jornalismo e Mídias Digitais, que eles falam justamente sobre o capacitismo em torno das deficiências invisíveis. Então o título é “qual é a cara da pessoa com deficiência?”. Vem uma foto de uma criança com a sua mãe de costas e tal. Justamente o texto inteiro é discutindo o capacitismo.
Mas também nesse mesmo post aqui, a gente tem outra questão que é as reformulações que a própria turma decidiu fazer na página do FaktorMT para que ele se tornasse mais acessível. Então eles trouxeram aqui de lado esse fundo preto com letras brancas para destacar outras coisas. Quem é o FaktorMT, quais são as redes sociais, essas coisas. Direcionar o link para o Spotify. Então são duas questões. Eles também mudaram o tamanho das fontes para poder ficar mais acessível também. E nesse caso aqui, na mesma matéria, tem a odd descrição das deficiências invisíveis que eles colocam no Spotify do próprio FaktorMT. E embaixo tem outra coisa que foi muito interessante. Uma das pessoas da equipe tem fibromialgia. E ela inclusive teve muita dificuldade nessa disciplina porque muitas vezes ela ia ser e irá reprová-la por falta porque muitas foram as faltas por conta da fibromialgia, das dores. E aí ela começa essa reportagem com um texto. Aqui eu trouxe só o primeiro parágrafo, mas é um texto de três parágrafos, se não me engano, em que ela diz:
“Hoje eu não consegui ir à aula porque estava com muita dor. Tem sido assim desde ontem. Me sinto incapaz de cumprir meu compromisso porque não consigo me levantar sem ajuda. Tenho estado muito ansiosa e não consigo descansar por medo de reprovar por faltas nas disciplinas da faculdade. E mais ainda por medo de não ser capaz de me formar um dia. Parece que o mundo funciona em uma velocidade que o meu corpo não é capaz de acompanhar. E sempre me atropela. Às vezes acho que o mundo não foi feito para incorporar pessoas como eu.”
O início da reportagem é esse relato pessoal e depois eles passam a reportagem em si, o que estava proposto. Por que eles atrasaram nessa cobertura? Porque a Letícia estava com dor, estava sem conseguir levantar e tudo mais. E aí eles trouxeram a própria experiência de quem estava fazendo a reportagem para o protesto. E aí, passando aqui dando continuidade, falando da diversidade de pautas, o que eu sempre trago para os futuros jornalistas. Primeiro a questão do não romantizar as pautas das pessoas com deficiência. Nas últimas três semanas eu tive uma dificuldade enorme para conduzir, orientar uma reportagem que estava sendo feita sobre as mães atípicas para o dia das mães. Porque eles traziam muito mais a questão da deficiência do que da própria mãe. Eles não tinham vários pontos que eram considerados capacitistas. Eu tentava discutir com eles, eu sentei, conversei, eu escrevi, eu tentei de todas as formas possíveis mostrar para eles o que estava sendo capacitista e eles diziam não me entendemos. Então foram três semanas para conseguir fechar um texto tirando questões capacitistas. Ele não foi publicado, inclusive, porque já tinha passado o dia das mães, quando o texto conseguiu ficar coerente, mas é isso, estão semanas lendo, relendo, conversando, conversando.
O segundo, não tratar como heróis essas pessoas, e era justamente o problema dessa disciplina porque eles tratavam como herói a mãe atípica por ter que lidar com uma pessoa com deficiência. Então, não é, são questões, são condições, está na vida. Exato, independente e outra, pode ser uma pessoa sem qualquer deficiência e que dê muito mais trabalho para essa mãe do que a pessoa com deficiência. Sim. Exato. Aí outra questão, é o não infantilizar, que é um recurso muito utilizado, tratar no diminutivo, conversar com a mãe ao invés de conversar com a pessoa, a mesma pessoa tendo 40 anos, vai lá e fala com quem é o responsável entre muitas aspas. E aí é outra coisa que também se repete muito nos testes, que a gente tem que ficar atento e por último não tratar como um castigo, como um fardo que tem que ser carregado, que a gente já tinha falado mais cedo, mas que aqui eu trabalho especificamente com os alunos, tentando especialmente pensar na internet que essas coisas não aconteçam.
E para falar desse protagonismo na apuração, então, falar diretamente com a pessoa, a pessoa escutar o que ela tem a dizer. Outra experiência foi tentando fazer uma pausa da fuga, que era sobre a bolsa paralímpica. E os alunos foram entrevistar as pessoas três vezes e nenhuma delas conseguiram falar com as pessoas que fazem a bolsa, porque a bolsa paralímpica tem várias opções, mas a principal delas é para quem quase não tem mobilidade. E as mães diziam, não, ele não vai conseguir falar. E aí pronto, como se a entrevista fosse só do falar, como se não tivesse outras formas de a gente conversar com essa pessoa, entender o que ela está passando, como se ela não pudesse comunicar de nenhuma forma só através da fala. Outra coisa, não usar os diminutivos, ou se utilizar a pessoa, e não reduzir a pessoa a deficiência, também tratar sempre como algo que faz sua parte. É uma das características entre muitas outras. E aí o que que eu, geralmente, falo com os alunos quando eu pego o texto. Se fosse uma pessoa sem deficiência, você estaria escrevendo desse jeito? Aí eles dizem, não.
Pronto, você está falando sobre uma pessoa que tem uma deficiência, uma das características dela, você não precisa que o seu texto gire em todo, em torno da deficiência. Então, por exemplo, quando eles vão falar do esporte, começa falando de como que a pessoa sofreu um acidente e por isso ela está, tem uma deficiência e agora está no judô, paralímpoico, não. Não falar, eu vou e pergunto, se fosse uma pessoa sem deficiência, você ia começar por onde? Aí não, ia falar dos prêmios. Então fala dos prêmios, começa falando dos prêmios da pessoa, do atleta, do qual você está falando. Traga exatamente as mesmas coisas que você traria se fosse uma pessoa com deficiência, porque ela é uma fonte comum, como qualquer outra. Então isso é uma das práticas aqui de orientação dentro das disciplinas.
Para falar da parte técnica, para fazer os conteúdos acessíveis eu sempre uso as diretrizes de acessibilidade para conteúdos web, que é a WCAG 2.2 de 2023. Na WCAG, se fala sobre o que é perceptível, então o que a gente consegue de fato ver, interagir e tal. O que é operável, seja o que eu tenho que fazer modificações, eu tenho que ligar alguma ferramenta, etc. Então, o que eu preciso ter colocado na parte interna, que dialoga muito com esse último tópico, que é o robusto, que daí é o que está de fato na parte interna do site, na parte interna dos aplicativos, para que eles sejam acessíveis. E também as diretrizes que estão relacionadas com o que é compreensível. Então as formas de você, por exemplo, fazer a audiodescrição, para que elas sejam equivalentes para as diferentes pessoas e afins. Então é um grande compilado de regras, de normas, enfim, para os conteúdos digitais, conteúdos na internet e que no Brasil entraram em vigor via Norma Brasileira Regulamentadora, a NBR 17/225, agora em março de 2025. Então é a NBR para acessibilidade em conteúdos e aplicativos web, que trata dos requisitos. Ela segue esses critérios da WCAG 2.2, buscando eliminar as barreiras de acesso para as pessoas com necessidades de acessibilidade, que aí não são apenas das pessoas com deficiência, mas também considerando pessoas idosas, considerando crianças, por exemplo, que vão ter uma velocidade menor, por exemplo, para ler uma legenda, coisas do tipo. E estabelecer os requisitos obrigatórios e recomendações, ou seja, sugestões.
Dentro desses níveis de conformidade que valem para o WCAG, que são assimilados pela NBR 17/225, a gente tem os níveis de conformidade, que são o nível A, é o nível básico, o nível 2A ou AA, é o nível mínimo a ser atingido, e o nível 3A, ou seja, AA, é o que é o desejável, o acessível ao maior número possível de pessoas. O que a NBR coloca? O que é requisito, é o que para o WCAG está no nível 2A, ou seja, o nível mínimo a ser atingido, e o que é recomendação, é o que está no 3A, que é o desejável. Então, você tem diferentes possibilidades, diferentes formas de fazer o conteúdo, e aí eu trouxe, inclusive, para vocês lá na frente, a réplica do Adobe Colo, que é a forma mais fácil, digamos, e a gente vê esses níveis, que vai que a gente consegue ver o que está no A, ou seja, aliás, o que está abaixo do A, que não é acessível para ninguém, o que está no AA, que é o nível mínimo, e o que está no AA, o desejável. Mas fiquemos com essas informações por enquanto.
Para falar especificamente dos textos, sempre usar as fontes sem serifa e as mais simples e conhecidas possíveis, como é o caso da Ariel, da Calibre e da Verdana, que são fontes sem serifa, que são fontes conhecidas e que não causam dificuldades de leitura nas pessoas, diferentes das fontes serifadas, que dependendo do tipo de deficiência visual ou cognitiva, enfim, dependendo do tipo de deficiência, a pessoa pode misturar todas aquelas letrinhas, ver só uma mancha preta, enfim, e dificulta o tipo de leitura. Existe, inclusive, uma fonte específica para as pessoas com dislexia, que aí é a Open Dyslex, enfim, ela tem pesos diferentes dentro da fonte para que ela seja mais facilmente entendível, mais facilmente legível para as pessoas com dislexia. A separação entre as letras também é um pouquinho maior do que a separação convencional, é comum, justamente, para minimizar as trocas de letras que as pessoas com dislexia fazem, então é uma fonte pensada especificamente para isso, ela é uma fonte livre, basta você baixar ela na internet e instalar, enfim, no que você está usando. Então dá para usar ela no Photoshop, dá para usar no Word, dá para usar em qualquer tipo de ferramento, de programa.
O alinhamento deve ser sempre à esquerda também para facilitar a leitura, e o bloco de texto tem que ter no máximo 80 caracteres por linha também para facilitar a leitura. Então textos muito longos na internet dificultam a leitura, por isso tem que pensar sempre naqueles 80 caracteres por linha para que ele seja compreensível, isso considerando os espaços em branco e as letras. No caso das imagens, todas as imagens que transmitem qualquer tipo de informação ou conteúdo devem possuir um texto alternativo e aquelas que são dispensáveis, que não trazem informação ou conteúdo devem ficar sem o texto alternativo, o texto alternativo vazio. Toda imagem funcional tem que possuir esse texto alternativo que descreva a sua funcionalidade e todas as imagens complexas devem ter uma explicação detalhada. Então se eu tenho uma tabela no formato de imagem, se eu tenho um infográfico, que em geral também é um pouco mais, muitas informações em uma imagem só, então essas que são mais complexas elas têm que ter uma explicação detalhada. As demais a gente se prende ao que é o mais importante daquela imagem e as imagens de texto elas também devem ter texto alternativo.
Então, por exemplo, o card do Instagram, ele tem ali uma foto por trás mas tem o título, uma chamada, uma manchete ali no sobre a imagem. Então a gente coloca esse texto como uma legenda alternativa ou, se por acaso, por qualquer razão teve que ser em formato de imagem tipo o meu Opendyslexic, inclusive aqui ó, o título da fonte e a fonte como ela tem no Google, como é o de apresentações, enfim apresentações do Google não permitem que você insira novas fontes. Então eu tive que dar um printzinho nele lá do Google e trazer ele pra cá. Então, neste caso, eu fui obrigada a ter uma imagem que é texto e então ela teria que ter legenda alternativa aqui para dizer que o que está escrito nela, é Open Dyslexic.
E sobre as imagens ai também as definições de como que a gente tem que fazer, né? Primeiro identificar o tipo de imagem, então fotografia colorida, fotografia colorida noturna, card, mapa, enfim o que você estiver descrevendo. Depois você descreve os itens, aí tem uma diferençazinha entre a audiodescrição e a legenda alternativa de imagens, que a gente descreve pela ordem de importância. Então muitas vezes ou algumas vezes, enfim, o cenário talvez não seja uma informação importante. Então você pode passar por ele muito rapidamente tipo aí em frente a um slide projetado, em frente a uma projeção que eu estou aqui no momento, ou em frente a uma parede branca. Isso vai estar lá no final porque não é necessariamente a parte mais importante. Então você começa com a pessoa. Como que eu falo isso sempre para os alunos? Você é vidente né? Ok. Qual foi a primeira coisa que você viu nessa foto? Você viu primeiro o cestinho de lixo aqui do lado ou você viu que a pessoa está levantando uma placa, a gente tal coisa, você viu primeiro a placa né, então você vai falar na ordem, na mesma ordem que você vê porque é a ordem de importância, a ordem que a gente vai captando essa imagem.
Porque a ideia da audiolegenda alternativa é colocar todas as pessoas no mesmo nível de percepção dessa imagem. Então o que não está na imagem, por exemplo, ele não vai na legenda alternativa. É o que diz a foto, e eu sei que aqui do lado teve um acidente, estava um carro capotado aqui do lado, mas na minha foto só estão as pessoas que estão olhando para o carro. Então eu vou falar do carro porque essa informação não está na imagem, o que está na imagem são só as pessoas. Então nunca colocar na legenda alternativa coisas que não estejam na imagem. E por isso, Marcos, a minha, o que eu foquei, nossa, mas aí a legenda, a audiodescrição vai ter coisas que não estão no filme, né? A pessoa já está contaminada pela legenda alternativa, mas tem que ser exatamente a mesma coisa.
Pois enfim, se houver informações de texto têm que ser descritas. Sempre a última coisa, primeiro você descreve a imagem e por último coloca o texto, utilizar verbos de ação e utilizar palavras-chave para que esse texto fique mais curto também. Usar palavras-chave para que seja mais objetivo mesmo e a gente entregue a informação mais rápido possível, e também usar verbos de ação e preferencialmente que não sejam verbos compostos, né? O mínimo de palavras possível.
E aqui eu trago agora as experiências positivas e negativas, tudo nesse mundo tem as duas coisas. Essa aqui é uma reportagem especial feita por alunos da UFMT no semestre de 2023.02 da disciplina de Jornalismo em Mídias Digitais. Essas meninas, e menino, tem o Eduardo ali no meio, elas usaram uma foto no plano de fundo da abertura, e o título não está completamente visível, tem algumas partes que estão em contraste com o céu azul, a letra branca e ela não permite que você leia algumas partes, então temos pontos negativos. Mas aqui na parte de baixo a gente tem os pontos positivos : tem a audiodescrição da reportagem inteira em que elas descrevem tanto as fotos, as imagens como descrevem também os textos, os títulos e afins, né? Então, numa primeira visão você não consegue ver o título perfeitamente, mas você tem a audiodescrição.
Outra experiência, agora da disciplina Fotojornalismo 1, 2024.2, é uma série fotográfica feita sobre o Tucumã, uma fruta lá do Norte. Elas escrevem a legenda da imagem e a legenda alternativa, então, a legenda da imagem são dedos marcados por anéis, unhas alaranjadas e mãos com sinais do tempo, que contam a história de Roseli como feirante, esposa, mãe e mulher, essa é a legenda. E aí a legenda alternativa, fotografia colorida e com o plano fechado, destaca as mãos de Roseli descascando o Tucumã. Restos laranjas da fruta em seus dedos se misturam com o tom alaranjado de sua pele. Então as informações que já estão na legenda, não trazem na legenda alternativa e descrevem, acrescentam, exato, porque o que elas não disseram na legenda, elas colocam na legenda alternativa, então os anéis, por exemplo, não precisam ser citados na legenda alternativa, porque já estavam na legenda, enfim, só legenda.
E aí uma coisa, um desafio para essa equipe aqui foi porque todas as fotos, as 12 fotos da série, elas tinham esse tom alaranjado sempre, fazendo a referência ao Tucumã, porque o Tucumã é um laranja bem forte e as mãos ficam laranjas, o que você toca com ele fica laranja também. E aí elas fizeram, eles fizeram a série inteira marcada por esse alaranjado. Aí como é que a gente coloca isso na legenda alternativa? Vai ter que estar em todas? Sim, em toda foto você vai ter que dizer onde está o alaranjado, porque é alaranjado, você vai ter que dizer para pessoa, para ela entender, quando chegar lá na última, ela entender é que todas elas tinham o laranja da cor da fruta. Então uma hora está nesse caso aqui, os farelinhos a cor mesmo vai passando para a mão dela, porque ela está descascando o Tucumã, ele é vendido ao natural e também é vendido em saquinhos, é como as tiras, umas fitas de Tucumã, que ela descascar vai descascando lá na hora. Então a cor passa para a mão, mas a cor também está na fruta, a cor também está na pele dela, que é também alaranjada. Então eles foram fazendo com muito cuidado essas descrições para mostrar que esse tom alaranjado estava em tudo.
MARCOS
Agradecemos a pesquisadora Leilianne Alves por compartilhar seu trabalho de pesquisa em nossa segunda temporada. Esperamos que tenha gostado e que possa compartilhar com outras pessoas ao seu redor. Não se esqueça de seguir a gente no Instagram @projetosomosdiversas e também em seu agregador de podcast favorito. Este episódio contou com a edição e locução de Marcos Paki e roteiro de Talita, França.
Antes de irmos, lembre-se sempre que a inclusão é uma construção coletiva. A Universidade produz pesquisas para auxiliar nessa jornada, mas as mudanças dependem da conscientização e da ação de todos. Continue com a gente nessa caminhada por uma sociedade mais inclusiva, diversa e plural. Até o próximo episódio.
O Podiversas é uma iniciativa do Observatório da Linguagem e Inclusão que integra o projeto de pesquisa Somos diversas financiado com recursos provenientes da CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.