Foto da pesquisadora Thais de Araújo, mulher branca de cabelos escuros e longos. Ela veste uma camisa de mangas compridas de listras, brancas e azuis, e está sentada em um birô, segurando um microfone, e olhando para o notebook à sua frente. Atrás dela, uma tela em branco projeta a apresentação do trabalho.

EP 4: A cobertura no Instagram da Paralimpíada de 2024

No 4º episódio da segunda temporada do Podiversas, a pesquisadora Thaís de Araújo, estudante de Cinema e Audiovisual da UFPB, apresenta a pesquisa que analisou o enquadramento do evento em 15 perfis dessa rede social, entre grandes veículos jornalísticos, mídias esportivas e o Brasil Paralímpico.

Ouça o episódio abaixo pelo Spotify ou em uma das plataformas a seguir: Deezer, Amazon Music ou YouTube Music.

Leia abaixo a transcrição do episódio:

MARCOS

Olá, Você está no Podiversas e essa é a nossa segunda temporada. Nosso podcast é um espaço de troca e diálogo onde a ciência e o conhecimento estão a favor da sociedade. Nesta temporada, damos voz aos pesquisadores do projeto Somos Diversas e seus trabalhos apresentados no primeiro Simpósio de Acessibilidade e Comunicação Somos Diversas, que aconteceu na Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa. Em cada episódio, você vai conhecer estudos, ter acesso a dados, vivências e iniciativas que buscam transformar realidades e diminuir barreiras físicas, comunicação, atitudinais e institucionais que impactam pessoas com deficiência.

MARCOS

No episódio de hoje conheceremos o trabalho da pesquisadora graduanda em cinema da Universidade Federal da Paraíba, Thais de Araújo. Seu trabalho intitula-se “Paralimpíadas 2024: análise da cobertura jornalística e esportiva no Instagram”. Se prepare, pois o conhecimento inclusivo começa agora.


THAIS

A minha pesquisa é sobre uma análise da cobertura que foi feita no Instagram das Paralimpíadas 2024. O objetivo da pesquisa era compreender como esses perfis abordaram o evento e os atletas paralímpicos nos temas tratados no enquadramento das publicações, no uso da terminologia apropriada em relação à deficiência, nas fontes consultadas e na utilização de imagens. A metodologia utilizada foi a análise de 15 perfis do Instagram, que totalizou cerca de 2.512 postes, divididos em três categorias, perfis jornalísticos, perfis esportivos e perfis institucionais. Por que essas categorias? Os perfis jornalísticos foram selecionados primeiro para serem os mesmos perfis que seriam analisados pela Isabela, que é minha companheira de pesquisa. Ela, no caso, pesquisa as matérias que são publicadas nesses jornais. Então, no primeiro momento, a minha pesquisa era para entender como nos mesmos jornais que ela estava pesquisando, eles retratavam as paralimpíadas nas redes sociais. E aí, no primeiro momento, foram os mesmos jornais que ela pesquisa também, que ela colocou as notícias e tinha também o Estadão. O Estadão não entrou aqui porque o Estadão não fez nenhum “post” sobre as Paralimpíadas. Então, ele não entrou aqui.

E aí, para além disso, eu ampliei a pesquisa nos perfis jornalísticos também para colocar perfis mais progressistas. Então, eu adicionei o Mídia Ninja e o Brasil, de Fato, para a gente também ter essa perspectiva de uma mídia não tão tradicional assim. E aí, teve os perfis esportivos, porque desses perfis eles possuíam contas para cobrir só esporte, que é o caso do Globoesporte, o Allsport, o CNN Sport, o Nijin Sport e tinha, claro, a Cazé TV, porque a Cazé TV é um fenômeno muito à parte, assim, quando se trata do esporte no Brasil. E eu achei que precisava ser analisado também já que eles são um grande fenômeno das redes sociais. E como perfil institucional, o perfil do próprio Brasil paraolímpico. 

Os testes de análises que a gente fez a partir dessa coleta foram sete, os cinco primeiros, que são os temas abordados, enquadramento do conteúdo, termos capacitistas, fontes usadas e uso das imagens. Eles são os mesmos termos que são pesquisados também por Isabela nas matérias. Mas os outros dois, que é o poste compartilhado e o meme, eles foram criados à parte, porque é algo muito específico das redes sociais e como a gente estava analisando a cobertura, era importante ter esses dados também. 

Então, nos temas abordados a gente vai querer entender qual é o foco temático da postagem, no enquadramento do conteúdo, qual é a perspectiva ou a narrativa adotada ali, termos capacitistas, se têm ou não a linguagem inadequada ou preconceituosa, as fontes usadas, quem foi citado e referenciado, o uso das imagens é a função das imagens no contexto da postagem. O “post” compartilhado é algo que remete apenas ao Instagram, onde um perfil consegue compartilhar um post com outro perfil. Então, digamos que eu compartilho um post com Marcos. As pessoas que me seguem mas não seguem Marcos conseguem ver esse perfil independente de qualquer coisa, de seguir ele ou não. Então, isso aumenta o alcance daquela postagem. 

E o meme, a postagem utiliza o formato de meme, que é um fenômeno muito típico das redes sociais. E aí os resultados e as discussões que a gente alcançou dessas análises, foi, no primeiro eixo temático, temas recorrentes e abordagens. Os principais temas foram o desempenho do atleta na competição, com foco nos resultados, e atuações dos atletas durante as provas. Esse foi disparado o maior de todos. A abertura das Paralimpíadas, que é a cerimônia do evento, é uma abertura muito mais focada nos atletas. Não tinha um foco na cerimônia em si, como é por exemplo nas olimpíadas, onde tem o foco em todos os espetáculos para além dos atletas brasileiros. Na abertura das Paralimpíadas, o destaque era para a delegação brasileira. Não tinha destaque também para a cerimônia em si. O quadro de medalhas, que analisava o desempenho geral dos países com ênfase na conquista de medalhas do Brasil. 

E tem também a categoria Outros, que foi uma categoria que ganhou relevância devido à dinâmica das redes, que vai te permitir explorar temas que nem sempre são abordados na mídia tradicional. Então, dois temas recorrentes nessa categoria Outros, que eu vi em muitos posts, isso que eu achei interessante, foram protestos políticos, então teve muito protesto político em relação à questão da Palestina, e pedidos de casamento. Houve vários pedidos de casamento na Paralimpíadas e aí ficou nessa categoria dos outros. 

Em relação à abordagem entre os perfis, os perfis, que eram esportivos mais independentes como Cazé TV e UniSport, trouxeram uma abordagem mais leve e descontraída, explorando temas que muitas vezes não eram priorizados pela mídia tradicional, como memes, curiosidades e histórias inspiradoras. Já os perfis jornalísticos de fato e os esportivos derivados deles, como é o caso do G1 e o Globoesporte, o All-U-All Sport, CNN e CNN Sport, eles deram maior destaque ao desempenho competitivo, especialmente a conquista de medalhas, com uma cobertura mais formal e alinhada ao padrão jornalístico tradicional que a gente vê nos jornais. 

Já em relação ao enquadramento do conteúdo, a maior parte dos posts foi enquadrada de forma no enquadramento esportivo, centrando-se principalmente nas seguintes abordagens: O desempenho nas provas, destaque para as competições em que os atletas tiveram um desempenho notável, então, era muito mais fácil cobrirem, por exemplo, as provas de natação, onde o Brasil tinha uma atuação muito maior do que de outros esportes, onde não tinha aquela visibilidade. 

A preparação dos atletas com conteúdos que mostraram a rotina de treinos, a dedicação e os desafios enfrentados pelos competidores. E aqui eu achei bem interessante esse conteúdo da preparação, principalmente se a gente pensar também nos próprios atletas olímpicos, então é um conteúdo que focava na preparação deles, humanizando eles mais assim. E é entrevista com os medalhistas, que é um espaço para os atletas que conquistaram medalhas, compartilhar as suas experiências. 

Em relação aos termos capacitistas, houve baixo uso desses termos, porém a gente tem que levar em consideração o fato de que a maior parte das legendas eram curtas e focadas em frases de comemoração ou celebração, sem espaço para expressões inadequadas. Uma frase que aparece em vários posts é aquela “piscou sorriu medalha para o Brasil”, então eram vários posts só com essa frase, e assim não tem como você fazer análise, você percebe que não tem termos nesse tipo de frase, porém quando a gente tinha um texto mais longo, detalhado, vai haver casos em que termos capacitistas aparecem, como o termo deficiente que está presente em 5,7 % das postagens do Brasil de fato. E aí alguns perfis como o Cazé TV e acho que o Mídia Ninja também, esses perfis mais menos tradicionais, assim, eles produziram esses vídeos educativos com pessoas que possuem deficiência para orientar o público sobre a forma correta de torcer pelos atletas, evitando o uso de termos capacitistas. 

Nas fontes usadas, a maioria dos posts não tinham uma fonte para o que estava sendo mostrado, né? Quando tinham, era de entrevistas concedidas pelos atletas ou de outros perfis que estavam fazendo a cobertura. Já em relação ao uso das imagens, a maioria dos posts utilizou como foto o principal recurso visual seguido por vídeos e em menor proporção carrosseis de 6, que são um conjunto de fotos reunidas em uma única publicação. Em muitos casos não foi possível atribuir um foco específico às imagens, seja por falta de clareza na composição ou pela ausência de um elemento central definido. 

Já no post compartilhado, teve posts que são do mesmo grupo editorial, por exemplo, G1 e o Globoesporte, o All e o All Sport, eles compartilhavam muitas vezes o mesmo post e havia também o post compartilhado com o perfil dos atletas. Publicações que destacavam conquistas ou histórias pessoais eram compartilhadas com esses perfis, o que aumentava o alcance do público. E aí eu trouxe um destaque que era o perfil do Brasil Paralímpico, porque ele foi o perfil que mais teve post compartilhado, porque além de ele ter posts compartilhado com os outros perfis que são pesquisados aqui, ele também teve post compartilhado com marcas que estavam patrocinando as Paralimpíadas e com os perfis oficiais das Paralimpíadas, além é claro dos perfis dos atletas. E aí, esse alto nível de compartilhamento pode ter contribuído para o crescimento de mais de 100 mil seguidores durante a cobertura do evento. Antes do início das paralimpíadas, o Brasil Paralímpico tinha quase 400 mil seguidores, ao fim do evento eles possuíam mais de 500 mil. 

E por fim, o Meme, que é esse fenômeno muito destacado das redes sociais, eles vão estar presentes principalmente nos perfis esportivos independentes e no Brasil Paralímpico, até como uma forma de alcance mesmo de público, é mais fácil esse tipo de conteúdo viralizar e eles foram utilizados para tornar a cobertura mais descontraída, atraindo um público maior e mais identificado, e também para humanizar os atletas mostrando momentos divertidos ou cotidianos como o vídeo do Gabrielzinho dançando que virou Meme foi amplamente compartilhado. 

Nas conclusões que a gente chegou dessas análises, a gente tem a principal a diferença dos perfis jornalísticos para os perfis mais  independentes, então os perfis de grandes redes como G1, CNN, UOL e esses outros, a cobertura foi mais modesta com um tom jornalístico tradicional focando informações factuais e impensuais. Em perfis como o Globo Esporte, eles mantiveram um estilo mais formal, porém eles tinham um número maior de posts e aí, trazendo Globo Esporte e o G1, o G1 teve cerca de 30 posts sobre a Paralimpíada, o Globo Esporte teve quase 100, e então havia essa diferença também entre o perfil principal e o perfil de esporte. Já nos perfis esportivos de mídias alternativas e no Brasil Paralímpico, eles tiveram a frequência maior de postagens e adotaram esse tom mais descontraído e próximo dos atletas criando uma sensação de intimidade de conexão com o público. 

E aí o Brasil Paralímpico teve mais de 600 posts, o Cazé TV e a maior cobertura foi feita pelo Ninja Esporte, com mais de 800 posts, e, de longe, a cobertura mais completa porque eles cobriram literalmente todos os atletas independente de ter ganhado medalha, independente de ter passado, todo o atleta que estava na delegação brasileira teve um post para si, contando sua história e contando seu desempenho. 

E aí essa abordagem provavelmente contribuiu para o maior alcance e engajamento, e aí, mais uma vez, o destaque do Brasil Paralímpico que ganhou mais de 100 mil seguidores durante o evento. E aí tem a dinâmica e a linguagem das redes sociais, né? A nossa análise destacou a importância de compreender como essas dinâmicas podem ser utilizadas para promover a inclusão e respeitar a dignidade das pessoas com deficiência. E a cobertura das Paralimpíadas mostrou que, embora de avanços, ainda há espaço para uma abordagem mais criativa, humanizada e inclusiva, que vá além do foco esportivo e competitivo.


MARCOS

Conhecemos um pouco do trabalho apresentado pela pesquisadora Thais de Araújo. Lembramos a você que esta temporada é composta por 7 episódios. Esperamos que tenha gostado e que possa compartilhar com outras pessoas ao seu redor. Ah, e não se esquece de seguir a gente no Instagram, tá? @projetosomosdiversas. Você pode ouvir este e outros episódios no seu agregador de podcast favorito. Este episódio contou com a edição e a locução de Marcos Paque e Roteiro de Talita França.

Gosto sempre de lembrar em todos os episódios que a inclusão é uma construção coletiva. A Universidade produz pesquisas para auxiliar nessa jornada, mas as mudanças dependem da conscientização e da ação de todos. Continue com a gente nessa caminhada por uma sociedade mais inclusiva, diversa e plural. Até o próximo episódio. 

O Podiversas é uma iniciativa do Observatório da Linguagem e Inclusão que integra o projeto de pesquisa Somos diversas financiado com recursos provenientes da CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.