Desafios e limites da tradução automática Libras / Português

Ferramentas como o Hand Talk ou VLibras ganham destaque ao prometer ampliar a acessibilidade. Mas até que ponto a tecnologia consegue, de fato, traduzir uma língua visual, cultural e viva?
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A história do VLibras teve início em 2009, quando pesquisadores do Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital (LAVID), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), começaram a desenvolver um sistema de tradução automática do português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). A iniciativa surgiu a partir da necessidade de ampliar a acessibilidade comunicacional para pessoas surdas. Em 2015, a equipe participou da elaboração da norma ABNT NBR 15610, relacionada à transmissão de conteúdos em Libras na televisão digital. Em 2016, o VLibras foi lançado oficialmente como um Serviço Digital do Governo Federal. Atualmente, a plataforma disponibiliza ferramentas gratuitas para tradução de textos, áudios e vídeos em português para Libras, podendo ser utilizada em computadores, dispositivos móveis e páginas da web.

Criado em 2012, em Maceió (AL), o Hand Talk surgiu inicialmente como um aplicativo que funcionava como um “dicionário de bolso”, traduzindo textos e áudios do português para a Libras por meio do avatar virtual Hugo. Fundado por Ronaldo Tenório, Carlos Wanderlan e Thadeu Luz, o projeto conquistou reconhecimento nacional e internacional, recebendo diversos prêmios de inovação e acessibilidade. Com o passar dos anos, a empresa ampliou sua atuação, desenvolvendo plugins para sites e soluções de acessibilidade digital para instituições públicas e privadas.

A ProDeaf foi criada em 2013 a partir de um projeto desenvolvido por estudantes e pesquisadores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Seu principal produto era um aplicativo capaz de traduzir fala e textos em português para Libras por meio de um avatar virtual, contribuindo para reduzir barreiras de comunicação entre surdos e ouvintes. Além do aplicativo móvel, a empresa também desenvolveu soluções para a web voltadas à acessibilidade digital. Em 2018, a Hand Talk anunciou a aquisição da ProDeaf, unindo duas das principais iniciativas brasileiras de tradução automática para Libras.

Essas são algumas das iniciativas brasileiras de tradução automática entre o par linguístico Libras / Português. O crescimento dessas tecnologias está ligado a um contexto importante. A Libras foi reconhecida oficialmente no Brasil em 2002, pela Lei nº 10.436. Esse reconhecimento marcou uma conquista histórica da comunidade surda, mas não garantiu, sozinho, a acessibilidade real. Ainda hoje, há muitas barreiras na educação, nos serviços públicos e na comunicação cotidiana. É nesse cenário que tecnologias como o Hand Talk e o VLibras surgem, com a proposta de aproximar surdos sinalizantes e ouvintes.

Mas é preciso olhar com atenção para o discurso da inclusão. Muitas vezes, a ideia de que pessoas surdas vivem como “estrangeiros em seu próprio país” aparece para sensibilizar ouvintes. Ao mesmo tempo, essa visão pode reforçar a surdez como falta, apagando o fato de que a comunidade surda é também uma comunidade linguística e cultural.

Avatares Maya e Hugo, do Hand Talk; e os avatares Guga, Ícaro e Hozana, do VLibras. 

Um dos elementos mais conhecidos do Hand Talk são seus avatares: primeiro o Hugo e, depois, a Maya. No VLibras há o Guga, Ícaro e Hozana.  Eles funcionam como tradutores virtuais e aparecem em celulares e sites. A criação da Maya, uma personagem negra, buscou ampliar a representatividade. Isso é importante, mas também levanta uma questão: será que um avatar consegue representar a complexidade da Libras?

A língua de sinais não é apenas um conjunto de gestos. Ela envolve expressões faciais, corpo, contexto e cultura. Por isso, o uso de avatares precisa ser visto com cuidado, principalmente em espaços institucionais. Em eventos, serviços públicos e conteúdos oficiais, substituir intérpretes humanos por tecnologia pode comprometer a comunicação. A presença de intérpretes e da janela de Libras ainda é fundamental para garantir acessibilidade de verdade. Nos sites oficiais do Governo Federal é o VLibras quem faz esse papel.

Outro ponto importante é que a Libras não é universal. Existem mais de 300 línguas de sinais no mundo, cada uma com sua estrutura própria. Mesmo dentro do Brasil, há variações regionais. A língua é viva, muda com o tempo e com os grupos que a utilizam.

Na prática, isso aparece no uso dos próprios aplicativos. Em minha experiência como professor de Libras, percebi que alguns alunos utilizavam o Hand Talk para estudar sinais. Em uma atividade sobre o sinal de “bairro”, surgiram diferenças em relação ao sinal ensinado em sala de aula. Isso ocorreu porque o aplicativo apresentava uma variante utilizada em outra região do país, enquanto os estudantes estavam aprendendo a variante mais comum em Minas Gerais. A variação linguística é um aspecto natural da Libras, mas o uso da tecnologia sem mediação pode gerar dúvidas e confusões no processo de aprendizagem, especialmente quando o aplicativo apresenta apenas uma variante para determinado sinal.

Por outro lado, a ferramenta também pode ajudar em situações do dia a dia. Em uma obra na minha casa, um pedreiro utilizou o próprio celular com o Hand Talk para se comunicar comigo. Foi uma interação simples, mas que mostrou como a tecnologia pode funcionar como ponte em contextos onde não há intérprete.

Esse é o ponto central: a tradução automática não é nem solução completa, nem problema. Ele é uma ferramenta importante, mas limitada. Não substitui intérpretes, não substitui o ensino de Libras e não resolve sozinha as barreiras de acessibilidade.

Ao mesmo tempo, sua existência ajuda a dar visibilidade à Libras e a colocar a acessibilidade digital em debate. O desafio é não reduzir a inclusão a uma solução tecnológica. A acessibilidade depende também de políticas públicas, educação bilíngue e valorização da cultura surda.

Aplicativos como o Hand Talk e o VLibras mostram que a tecnologia pode ajudar, mas não pode substituir a experiência humana, linguística e cultural da comunidade surda. A inclusão real acontece quando esses elementos caminham juntos.

Escrito por

  • Ademar Alves

    Mineiro do Vale do Jequitinhonha, surdo sinalizante e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Formado em Arquitetura e Urbanismo, é também estudante de Cinema e Audiovisual. Concluiu quatro especializações na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas): Fotografia e Outras Visualidades Contemporâneas; Criação Publicitária e Produção Audiovisual; Escrita Criativa; Culturas Urbanas, Mídia e Memória.