Filme mexicano desconstrói representações negativas sobre o universo dos surdos

Análise do filme “Todo o Silêncio”, produzida para a disciplina Mídia, deficiência, corpo e acessibilidade (UFMG), ministrada pela professora Regiane Lucas de Oliveira Garcêz, no âmbito do Observatório da Linguagem e Inclusão.
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“Você acha normal que a gente só pode ir ao cinema ver filmes com legendas? Acha normal que cada vez que soa a campainha as luzes piscarem? Acha normal um jantar sem músicas? Que eu tenha que ir ao teatro sozinha? Acha normal precisar ver minha cara para me entender? Eu precisar buscar seus olhos para dizer que te amo?”.

É assim que Miriam reage, durante um briga com a namorada Lola, ao fato de estar perdendo a audição. Miriam, interpretada por Adriana Llabres, é a protagonista do filme mexicano “Todo o silêncio”, do diretor Diego del Río, lançado em 2023. A obra retrata a história de uma atriz e professora de língua de sinais ouvinte que ao longo da trama descobre estar ficando surda. A atriz principal foi indicada e vencedora do prêmio Ariel de melhor atuação.

Num primeiro momento, Miriam, que é filha de surdos, recusa a ideia de que viverá em um mundo sem som e entra em conflito com sua namorada. Lola é uma mulher surda oralizada e possui amizades com pessoas surdas. Ou seja, mesmo sendo familiarizada a esse mundo, a protagonista também tem uma vida de uma pessoa ouvinte, possuindo uma grande afinidade com a música, teatro convencional e privilégios de ouvintes. 

Nesse contexto, é perceptível que ambas as personagens são impactadas pela forma como a sociedade vê as pessoas surdas e como as tratam. O filme evidencia o quanto as opressões afetam as perspectivas dos indivíduos sobre eles mesmos. 

Por outro lado, a obra discute a importância das relações afetivas e de acolhimento no processo de autodescoberta e auto aceitação. Em determinada parte do filme, Miriam revela ao amigo surdo Manuel o drama de estar perdendo a audição. Manuel leva-a para um local em frente a uma avenida cheia de carros e congestionada pelo trânsito e explicita: “Sei que o trânsito é barulhento e caótico. Mas não o escuto […] Claro que é horrível, mas não escuto. Daqui só vejo uma paisagem tranquila e linda. Olha.”. Neste momento, ele coloca as mãos nas orelhas de Miriam que olha a paisagem e diz: “Ser surdo tem coisas muito boas. Poder Surdo. [..] Está entrando em outro mundo e precisará pensar de outro jeito”. Após esta cena, Lola leva Miriam para sair com Manuel e outra amiga que sabe a língua de sinais. O local é frequentado por pessoas surdas e adaptado para suas necessidades, tentando acolhê-la e trazer novas perspectivas.

Contrapondo-se às representações tradicionais estigmatizadas, o filme mostra que as pessoas surdas são plurais, possuem desejos, conflitos pessoais, ambições e expectativas. Mesmo que a sociedade tente marginalizá-las e limitá-las, a expressão de sua existência plural e cultural é mais forte. O filme não apresenta os personagens como incapazes ou que precisam ser curados, mas como essa visão médica predominante na sociedade os impacta. A vida da comunidade surda e a valorização da língua de sinais desmascaram estigmas históricos sobre os surdos.

Contudo, mesmo sendo um audiovisual muito sensível e que pretende ser inclusivo, é preciso questionar se há representatividade de fato, pois as atrizes que fazem as personagens principais não são surdas e nem ao menos da comunidade LGBT+. Nesse aspecto, identificamos a existência do CripFace, termo usado para descrever uma pessoa sem deficiência que atua como uma pessoa com deficiência em filmes ou teatros. Existem diversos atores e atrizes surdos que poderiam ser convidados para atuar no filme, por exemplo.

Em suma, é importante pensar a presença da representatividade e inclusão em toda produção, não somente nas personagens, mas também em quem as interpreta. Ainda assim, o longa-metragem revela como o cinema pode ser uma ferramenta poderosa na construção de novas narrativas sobre a deficiência, com novas perspectivas.

O filme está disponível na plataforma Prime Video

Disciplina: Mídia, Deficiência, Corpo e Acessibilidade – 2024/2

Professora: Regiane Lucas de Oliveira Garcêz

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