Desmistificando o tema do nanismo em relacionamentos afetivos

Uma análise sobre o Episódio #Varal, no Podcast Não Inviabilize, produzida para a disciplina: Mídia, deficiência, corpo e acessibilidade; Professora: Regiane Lucas de Oliveira Garcêz
Vários pontos de luz desfocados em formato de corações, iluminando suavemente um fundo escuro e indistinto, criando um clima aconchegante e romântico

Após se mudar para uma casa de vila após um divórcio, Vanderlei se encanta pela vizinha, uma mulher bonita que aparentava ter por volta de 35 anos. Logo buscou descobrir se a mulher era casada. No varal muitas das roupas eram pequenas. Pela janela, a vizinha sempre conversava com alguém olhando para baixo. Logo, Vanderlei deduziu que ela tinha um filho pequeno, mas não era casada. A partir disso, ele decide então investir em flertes e conversas com a moça, que não retribuía. A grande reviravolta da história é quando Vanderlei é abordado violentamente por um homem, que era o marido da mulher pela qual Vanderlei se encantou e que era na realidade uma pessoa com nanismo. Nesse momento, Vanderlei percebe a visão de exclusão que ele estava reproduzindo por nunca ter pensado que aquela mulher poderia ser casada com uma pessoa com nanismo. 

O episódio #Varal foi publicado em 14 de dezembro de 2023 no podcast Não Inviabilize, um grande conhecido do público de podcasts. Com cerca de 3 milhões de ouvintes por mês, é um espaço de contos e crônicas e se autodefine como “um laboratório de histórias reais”. O episódio traz à tona a existência de pessoas com nanismo em nosso cotidiano e a forma como isso é sequer considerado. A história faz parte do quadro Picolé de Limão, um quadro temático destinado a contar histórias verídicas de confusões, traições e situações engraçadas. Apesar de se tratar de um episódio relativamente curto, com 16 minutos, Déia Freitas, a criadora e apresentadora do podcast, elabora uma narrativa que nos interroga se pensamos de forma inclusiva mesmo em situações cotidianas do dia a dia. 

Após revelar a existência do marido, Déia Freitas traz questionamentos importantes que dão visibilidade às pessoas com nanismo e à possibilidade de que elas tenham vidas pessoais e relacionamentos afetivos. Ao elaborar essas questões, ela também aproxima a questão da deficiência com o recorte de raça: 

Eu faço muito esse exercício… Por exemplo, se eu vou num prédio, num estabelecimento comercial, em qualquer lugar, eu vejo se tem rampa, eu vejo se é um lugar acessível… Isso já tá em mim. Eu acho que muita gente não faz isso. É um exercício que eu faço, eu sempre faço, é meio que automático. Duas coisas que eu faço: Chegar num lugar e ver se tem preto no lugar e ver se é acessível. São duas coisas que são automáticas pra mim, assim, dar uma geral para ver quantos pretos tem, se tem preto, se não tem preto e se o lugar é acessível. (NÃO INVIABILIZE, 2023)

Esse pensamento que aproxima o racismo ao capacitismo é muito potente para elaborarmos uma educação efetivamente inclusiva de nossos pensamentos e atitudes. A interseção entre deficiência e raça é um tema complexo e multifacetado que tem recebido crescente atenção nos estudos sobre deficiência e nos estudos feministas da deficiência. Essa interseção revela como as categorias de raça e deficiência se cruzam para produzir experiências únicas de opressão e marginalização, com impactos significativos em diferentes aspectos da vida das pessoas. Assim, a interseccionalidade, conceito proposto por Kimberlé Crenshaw, é crucial para entender como múltiplas categorias sociais se entrelaçam (Gomes; Lopes; Gesser; Toneli, 2019). 

Ainda, essa perspectiva critica a ideia de que as opressões podem ser analisadas de forma isolada. Nesse sentido, assim como a raça, a deficiência ou o nanismo fazem parte de narrativas culturalmente fabricadas sobre o corpo, que estrutura instituições, produz subjetividades, práticas culturais e comunidades históricas, influenciando as relações de poder (Gomes; Lopes; Gesser; Toneli, 2019). A forma como a deficiência é compreendida e vivenciada varia de acordo com diferentes marcadores sociais, incluindo raça, classe, gênero, e outros. 

Experiências de comunicação que questionam a naturalização das opressões são sempre bem vindas. O podcast Não Inviabilize é uma delas. Além de realizar processos seletivos inclusivos para compor o seu quadro de profissionais, eles criaram um canal em que traduzem as histórias para Libras, fazem transcrições dos episódios e sempre trazem histórias que podem questionar as desigualdades. Vida longa ao Não Inviabilize.

Link do podcast analisado: https://naoinviabilize.com.br/varal/ 

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