Game of Thrones (2011 – 2019) é uma das séries mais premiadas e aclamadas de todos os tempos. Baseada no livro de George R.R. Martin, se trata de uma fantasia épica que acontece entre os continentes fictícios de Essos e Westeros, onde o enredo se desenrola na luta e conquista do Trono de Ferro, símbolo máximo de poder dos Sete Reinos. Apesar do ambiente fantástico, com uso de dragões e forças sobrenaturais que assombram a humanidade, a série tem inspirações culturais e políticas da Europa medieval como cenário narrativo. Representa a estrutura feudal, os conflitos dinásticos e as armas e tecnologias utilizadas durante as guerras. Além disso, retrata os conflitos familiares entre as principais famílias nobres Stark, Lannister e Targaryen, com um drama que explora intrigas, traições, batalhas, poder, honra, e como foco deste texto, a deficiência.
No primeiro episódio da série, antes de o espectador ser apresentado ao personagem Tyrion Lannister, interpretado por Peter Dinklage, Arya Stark (Maisie Williams) pergunta por ele ao dizer “Onde está o duende?”. O irmão de Tyrion, Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), o encontra então no bordel bebendo deitado com uma mulher. Apesar do termo “duende”, Tyrion não é um personagem fantástico. O ator Peter Dinklage, assim como o personagem que representa, é uma pessoa com nanismo. Da mesma forma que fora das telas, o personagem também é alvo de estigmas e preconceitos na trama.
Sua apresentação na série pode gerar estranhamento, mas segundo o próprio ator, o objetivo foi desenvolver um personagem que escapasse do universo da fantasia. Em entrevista ao canal de Youtube “FLAGRANT” em 2024 sobre interpretar Tyrion Lannister, ele declarou “Eu só queria não ser um anão fantasioso, só queria… não quero ser grosso, mas queria ter um pau!” e completou “Clinicamente, quem você é foi meio que caçado pelo mundo da fantasia como um termo para alguém que não é humano, como um gnomo ou um ogro, ou qualquer outra coisa que não exista.. fada, duende…”. O relato reflete como, mesmo com uma carreira de destaque, ativa desde 1999, o ator ainda é geralmente cotado para papéis que utilizam do seu corpo como principal elemento para a atuação, enquanto é cortado de papéis “reais”. Sua entrada em Game of Thrones demonstra que Tyrion não é um corpo fantástico, mas real, com necessidades e desejos extremamente humanos, que busca e realiza-os. Além disso, seus desejos são adultos, o que rompe com o estigma muitas vezes atribuído às pessoas com nanismo de infantilização e não desenvolvimento.
[Figura 1: Peter Dinklage como Tyrion Lannister em Game of Thrones]

Fonte: Rolling Stones, 2020.
Apesar dos prejulgamentos pelos seus problemas com o uso abusivo do álcool e seu comportamento promíscuo, Tyrion também demonstra seu espírito benevolente e altruísta com aqueles que considera serem oprimidos assim como ele, e assim faz aliados e aliadas importantes do enredo. Ainda no primeiro episódio, ao encontrar com Jon Snow, um jovem que se sente menosprezado por ser um bastardo, Tyrion relata sobre sua deficiência e o aconselha: “Nunca esqueça o que você é, o resto do mundo não vai. Use isso como uma armadura e isso nunca poderá ser usado para machucar você.”. A série também possui outras representatividades de pessoas com deficiência. Bran Stark (Isaac Hempstead-Wright) representa um adolescente com deficiência física, ocasionada por uma queda provocada por um crime cometido por Jaime Lannister. Apesar das desavenças entre familiares, Tyrion o ajuda com uma cela adaptada para cavalgar. Quando questionado pelo irmão de Bran o motivo da atitude, Tyrion responde “Eu tenho um lugar especial no meu coração para aleijados, bastardos e coisas quebradas”.
A benevolência, a sociabilidade e a comunicação de Tyrion dão cada vez mais espaço ao personagem na série, e as constantes críticas que recebe sobre sua deficiência são rebatidas com humor e sarcasmo. Através das suas observações, alianças, influências e movimentos políticos, Tyrion se revela um homem perspicaz, inteligente e extremamente estratégico, ganhando cada vez mais destaque no jogo político. Entretanto, suas habilidades não o excluem das retaliações familiares. Tyrion nasceu de um óbito materno e seu pai e irmã o recriminam e o culpabilizam constantemente. Esse fato é melhor ilustrado no episódio 06 da quarta temporada. Ao ser traído pelos dois durante um julgamento, Tyrion desabafa “Sou culpado de um crime muito mais monstruoso. Sou culpado de ser um anão”. O pai então rebate
“Você não está sendo julgado por ser um anão”. Tyrion responde “Sim, eu estou. Tenho sido julgado por isso toda minha vida.”.
Fonte: Tyler Morning Telegraph, 2014.
Mesmo diante dos julgamentos recebidos dos familiares e da sociedade, Tyrion mantém seu desejo vivo e escolhe seus próprios caminhos, alianças e posição política, mantendo uma postura de honra e lealdade durante todo o desenrolar da história. Fora das telas, o ator Peter Dinklage se destaca por ser o único indicado ao Emmy em todas as oito temporadas da série, na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Das oito, o ator levou quatro prêmios (2011, 2015, 2018 e 2019). Além disso, o ator também recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Globo de Ouro também em 2011.
O sucesso do ator e do seu personagem não tem relação com sua deficiência, mas sim com o desenvolvimento, complexidade e relevância de Tyrion Lannister, e graças ao esforço, talento e maestria de Peter Dinklage. Isso nos leva a pensar em quantos bons atores e atrizes estão presos nos estereótipos que nós mesmos condicionamos e limitamos, impedindo não só a impossibilidade da inclusão de outras realidades e perspectivas, mas também de outros talentos. A série pode ser assistida na HBO, rede televisiva responsável pela produção. Há um aplicativo de acessibilidade para pessoas com deficiências visuais e auditivas, disponível para assistir todas as temporadas da série. O aplicativo oferece audiodescrição em português e legendas.
Disciplina: Mídia, Deficiência, Corpo e Acessibilidade – 2024/2
Professora: Regiane Lucas de Oliveira Garcêz